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quarta, 28 de outubro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – No ano passado, de Mario Quintana

Como se dizia nos sertões das Gerais, não adianta chorar sobre o leite derramado.

Vale olhar para a frente, mas sobretudo para o alto, guardando na gaveta do criado-mudo o

que ficou para trás.

Até para que, eventualmente, num dia cinzento, de frio no coração, possamos nos aquecer nas boas lembranças que ficaram para sempre guardadas..

Este ano de 2020, que sempre chamamos de “novo”, por um lado oferece algumas saudáveis expectativas para nós:

– o Arcanjo Miguel será o regente de 2020, reza a angeologia, clamando por paz, objetividade e simplicidade;

– o tarô prevê um ano de justiça, crescimento e transformações (esquerda);

– Xangô, o rei do trovão e do relâmpago (direita), e Yansã, a senhora dos ventos (abaixo, à esquerda), raios e tempestades, são os orixás regentes, ele justiceiro, ela alegre, ambos movimentando energias, trazendo justiça, fartura, empregos.

Alguns cuidados são exigidos, no entanto, para os três primeiros meses do ano, ainda recebendo influência de Exu e Ogum, regentes de 1919.

Em 2020 já instalado, mostra-nos o horóscopo, ocorrerá um encontro raro dos planetas Júpiter, Saturno e Plutão , fenômeno capaz de gerar turbulência., também no plano da política, com Plutão simbolizando energias subterrâneas e Saturno contenção e repressão.

É ai que mora o perigo. O pêndulo da história caminhando na direção de governos conservadores e autoritários.

Mas pode haver opções, não sei se por nós adotáveis:

– Se nosso ano novo tem início dia 1º de janeiro, para os chineses só começa no dia 25 de fevereiro, e seu horóscopo tem o rato de metal como regente (direita), o que para o seu povo significa empreendedorismo (como se precisassem…) bons negócios, investimentos.

O rato de metal dos chineses simboliza ano de recomeços, oportunidades, uso da inteligência e de estratégias, inspiração para novos projetos.

(Interrompo a redação da coluna para ouvir, desde a sala de redação do Portal Don Oleari, a voz de um companheiro familiarizado com os mistérios da cabala lembrando que a soma da data 1/1/2020 é 6, número do odu Obará (à direita), senhor da fartura, da riqueza, do do progresso e da alegria.

Assim, não precisamos cruzar continentes e oceanos para dispormos de alavancas espirituais assegurando um bom ano novo.

Lembra ainda o Portal para os que procuram ver além dos horizontes: a cor de 2020 é o verde, cor da cura e do chacra cardíaco, ligado ao amor e à compaixão.

O poema escolhido para marcar este primeiro sábado do ano da graça de 2020 fala sobre o tema, que dele seria quase impossível fugir. NO ANO PASSADO é um poema-crônica com que Mário Quintana nos perturba e nos embala – fazendo-nos refletir e sonhar.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

 

No ano passado…

Mario Quintana

Já repararam como é bom dizer “o ano passado”? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem…Tudo sim, tudo mesmo!

Porque, embora nesse “tudo” se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraordinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associated Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

– “Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados”.

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos…

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.

(Mario Quintana)

 

Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

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