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sexta, 28 de fevereiro de 2020

Aqui Wilson Côelho: O som do ruído

Manoel Ricardo de Lima

– O ser humano também está fadado à ignorância.

Acredito que o mais importante de uma obra não é o que ela provoca no momento de sua publicação, considerando ser este o motivo do envelhecimento e morte da maioria delas, pois o mais interessante como resultado de uma criação é a sua capacidade de se renovar ao longo do tempo.

Assim, considero que “Jogo de Varetas”, de Manoel Ricardo de Lima (foto), se afirma numa condição sempiterna.

C’est à dire, trata-se de uma obra que, apesar de sua matéria-prima colhida no cotidiano, não se reduz a uma abordagem meramente material-social, mas traz em si uma proposta de inquietude existencial, quando as questões da realidade reafirmam o contexto de um jogador à mercê de imprevistos resultados.

Como dizia Fernando Arrabal, “a vida é a memória e, o homem, o azar” (acaso).

Por mais habilidade que o jogador possa ter diante de uma partida, bem como todo o conhecimento deste sobre as peças que manuseia, ele estará sempre dependente de algo que está para além desse suposto saber, na medida em que ele está inserido num mundo que é bem maior do que os significados que ele empresta para justificar sua existência. De certa forma, lembrando Dostoïevski,uma espécie de jogo que determina implacavelmente a inclusão e as escolhas de cada personagem.

Ao declarar o “Eu não sei muita coisa”, praticamente, está dado o mote de todas as toadas ou prosas que se seguem. Mas essa afirmação não é como o “blefe” de Platão na voz de Sócrates quando diz que “Só sei que nada sei” que pode até soar como uma postura esnobe para brincar de não-saber quando – na verdade – a maiêutica é uma estratégia de quem sabe alguma coisa e não admite realmente o confronto, ou seja, uma maneira ornamental de mostrar o saber criando uma armadilha para o interlocutor.

No caso de Manoel Ricardo de Lima, em “Jogo de Varetas”, o “Eu não sei muita coisa”, mais que a fala de um personagem, é um tipo de confissão da impotência humana diante do absoluto. É a declaração de uma nudez diante dos fenômenos e, assim como Sartre nos diz que “o homem está condenado a ser livre”, Lima nos informa que o ser humano também está fadado à ignorância.

E, mesmo quando se socorre da narrativa para dizer as coisas, o autor demonstra que as coisas que sentimos não são as coisas e não existem em si mesmas, mas apenas os nossos relatos como testemunhas de algo que não sabemos, pois esse algo está para além de nossas possibilidades de nomeá-las.

Enfim, “Jogo de Varetas” – assim como el famoso solilóquio de “Hamlet”, de Shakespeare: ‘Tobeornottobe’ (“Ser ou não ser”) ou o “Fin de Partie” (Fim de Partida), de Beckett, pontuando o som como ruído – é um desafio colocado diante do jogador/leitor que, com as mãos trêmulas, quer continuar jogando, mesmo correndo o risco de – em alguns momentos – não conseguir retirar as varetas e perder sua vez.

Wilson Côelho

Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados. Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES (Universidade Federal do ES); Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.

Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior – Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

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