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sbado, 04 de abril de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Fogo na Mata, de Virgínia Tamanini

O fogo que devasta grande parte do Mundo  nos faz evocar Stephen Hawing (à esquerda), o maior físico e cosmólogo do nosso tempo,  quando afirmou:

– “Pois o Planeta Terra, nos próximos 600 anos, irá se transformar em uma bola de fogo.”

Esse vaticínio  no entanto está presente na Bíblia onde a palavra fogo está registrada em pelo menos 439 versículos, como em Reis (18:38):

– “Então o fogo do Senhor caiu  e queimou completamente o holocausto, a lenha, as pedras e o chão e também secou totalmente a água na valeta”.

Antes ainda,  muito antes, no Século V a.C, Zoroastro, criador do culto monoteísta mazdaismo, assegurava que “no dia do julgamento final dos povos, as montanhas derreterão pelo  fogo e o mundo será coberto por um oceano de lava e metal incandescente”.

Contemporânea, a imprensa divulga os danosos efeitos das queimadas na Califórnia, na Amazônia e na  Austrália,  e somos levados à profecia do Apocalípse ao proclamar que o “primeiro Anjo tocou a trombeta e saraiva e fogo, misturado com sangue, foram lançados sobre a Terra e queimou-se uma terça parte da terra, a terça parte das árvores e também toda a erva verde’  (Ap. 8:7).

Não por menos.

Na Califórnia, uma das regiões mais ricas e  mais elitizados dos Estados Unidos,  cerca de dez mil residências estão ainda agora sendo destruídas pelo fogo, ocasionando prejuízos calculados  em bilhões de dólares. Nos nove Estados da Amazônia brasileira, onde se estima a existência de 400 bilhões de árvores, foram registrados quase 60 mil focos de incêndios florestais, e na Austrália o fogo está consumindo área superior a 1 milhão de campos de futebol e dizimando, segundo se noticia, mais de 1 bilhão de animais da fauna australiana.

A Coluna deste  sábado revela no entanto que essa preocupação com as queimadas que assolam parte do nosso Planeta já estava presente nos anais  do cancioneiro capixaba desde muito antes.

Como nos mostra esse singular poema, FOGO NA MATA,  um registro pode-se dizer premonitório, escrito por uma poeta nascida no ano de 1897 na Fazenda Boa Vista, no Vale do Canaã (à esquerda), em Santa Teresa, Espírito Santo, que a História imortalizou  sob o nome de Virgínia Tamanini.

Auto-didata, filha de modestos imigrantes italianos,  Virgínia Tamanini (à direita), que  continha no entanto os genes da milenar cultura europeia, entre 1929 e 1931, produziu peças teatrais encenadas com sucesso.

Em 1947, adaptou, encenou e dirigiu  a peça “Cristina da Suécia” apresentada no Teatro Carlos Gomes, em Vitória.

Foi autora, muito jovem, de um folhetim publicado sob pseudônimo  no jornal “O Comércio”, de Santa Leopoldina.

Destacou-se sobretudo como poeta de  muita sensibilidade, o que a levou a ser nome de rua na cidade de Ibiraçu, ter sido agraciada com a Ordem  do Mérito Marechal José Pessoa,” do Distrito Federal, e a ser membro e patrona da cadeira número 3 da Academia Feminina  Espírito-santense de Letras,  da Associação Espírito-santense de Imprensa, sócia-correspondente da Academia de Literatura a Academia de Letras do Rio Grande do Sul.

Aos 84 anos de idade, já nacionalmente consagrada como intelectual,  foi eleita para ocupar a Cadeira nº 15  da Academia Espírito-santense de Letras.

Como honra ao mérito, pontua o Portal.

Virginia Tomanini faleceu em 1990.

O Portal Don Oleari rende, com a Coluna deste sábado, suas homenagens a essa extraordinária mulher,  que deu nobre dimensão à inteligência criativa do Espírito Santo, publicando seu poema Fogo na Mata.

Rubens Pontes

Capim Braco, MG.

Jornalista

FOGO NA MATA

Virgínia Tamanini

O fogo se alastra rugindo qual fera

sedenta de sangue ao baque da presa.

E nessa volúpia de gozo e braveza

o ventre escaldante revolve e descerra!

E abrange a amplitude, e rasga e se aferra,

lambendo raivoso, voraz na destreza!

E a mata se dobra, na rude grandeza,

tombando entre as chamas à face da terra.

Por entre o negrume crepita o braseiro,

e o pobre colono, de braços cruzados,

lamenta impotente a falta do aceiro…

Agora já é tarde. Pois nada mais resta

senão que trabalhos por força dobrados

e a triste saudade da verde floresta…

 MARCAS DO TEMPO- POESIA.  Brasília: Litograf

Abaixo, linki para outra coluna de Rubens Pontes dedicada a Virgínia Tamanini.

Aqui Rubens Pontes: Poema de sábado – Ela é diferente, de Virginia Tamanini

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