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tera, 25 de fevereiro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Sobre a chuva: Jorge Luis Borges, Mario Quintana, Paul Verlaine, Florbela Espanca, Adalgisa Nery

Eu me lembro bem. Adolescente e ginasiano, aguardava sempre com ansiedade a chegada das férias, iniciadas na segunda quinzena dos meses de novembro.

A época marcava também o inicio das chuvas de verão que se prolongavam até o chamado veranico no dia 15 de janeiro. Uma trégua para reinicio das chuvas que se estendiam depois de uma semana até a primeira quinzena de março. Infalivelmente. Possível e eventual alteração era assinalada pela infalível Folhinha Mariana.

Olavo Bilac, o grande poeta daquele tempo, marcou essa fase no seu “Caçador de Esmeraldas”:

– “Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada do outono…”

Chovia muito, mas sem as violentas consequências marcadas pelos temporais que hoje nos assolam.

A Grande Belo Horizonte e algumas cidades do sul do Espírito Santo sofrem as consequências desse dilúvio sem uma Arca que os abrigue. Culpa nossa ou de São Pedro?

É sobretudo para a sofrida população dos dois Estados-irmãos que o Portal Don Oleari, via esta coluna, abre espaços e encaminha, como lenitivo, poemas sobre a chuva.

Pelo Portal,
Rubens Pontes

Capim Branco, MG

 

A Chuva (veja vídeo no final da coluna)

Jorge Luis Borges

Bruscamente a tarde se clariou
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que sem dúvidas acontece no passado.

Quem escuta cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E a curiosa cor do vermelho.

Esta chuva que cega os cristais
Alegrará em perdidos arredores
As negra uvas de uma videira certamente

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me trai a voz, a voz desejada,
De meu pai que retorna e que não morreu.

Jorge Luis Borges

Chuva 2

Mario Quintana

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo…

Eu ouço música como quem está morto
e sente já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá…

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.

Mario Quintana,
in Apontamentos de HistoriaSobrenatura

Chuva 3

Paul Verlaine

Chora em meu coração
Como chove na cidade :
Que lassidão é esta
Que invade meu coração?

Oh doce rumor da chuva
Na terra e nos telhados!
Num coração que se enfada
Oh o canto da chuva!

Chora sem razão
Neste coração exausto.
O quê! nenhuma traição?…
Este luto é sem razão.

E é bem a dor maior
A de não saber porquê
Sem amor e sem rancor
Meu coração tanto dói!

Paul Verlaine
Tradução de Amélia Pais

Mistério

Florbela Espanca

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca

Chove Dentro da Minha Alma

Adalgisa Nery

Ouço bem a chuva que dentro da minha alma cai.
Debruço-me num tempo erguido pela nostalgia
e a chuva é mais fria.
Procuro em meu coração uma tristeza qualquer;
talvez assim encontre aquecimento
e mude o ritmo da chuva
por algum momento.
Busca em vão.
A chuva continua em compasso firme e lento
desacompanhada de vento.
Procuro em meu coração
um segundo de descanso
e talvez de exultação;
novamente recorri em vão.
Chove dentro da minha alma
o pranto das noites frias
e das inumeráveis tristezas sem razão.

Adalgisa Nery

 

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