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tera, 25 de fevereiro de 2020

Ser homem, ser negro, ser gay, ser só, de Mario Antonio Fera – As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica – Por Rodrigo Mello Rêgo

Senhor Editor do Portal Don Oleari

Dediquei-me, durante toda a primeira semana de 2020, à leitura de uma obra muito interessante abordando tema que me faz mergulhar, há quase 3 anos, no levantamento de intelectuais que nos seus trabalhos publicaram temas eróticos e, muitas vezes, chegando ao que se convencionou  chamar de literatura pornográfica..

Já havia, eu próprio, relacionado autores gays que se acham inscritos nas Antologias pátrias entre os grandes e imortais intelectuais brasileiros.

Entre eles, o criador da “Lira dos Vintes Anos”, Álvares de Azevedo, que morreu antes de completar 21 anos, e deixou gravada uma despedida para seu amante Luís.

Criador da Semana de Arte Moderna , Mário de Andrade (à esquerda), escritor, autor de “Macunaima”, em cartas endereçadas a amigos intelectuais, não escamoteou sua homossexualidade.

João do Rio (à direita), membro da Academia Brasileira de Letras, homossexual, foi motivo de críticas ásperas de companheiros de oficio, inclusive do poeta Manuel Bandeira.

Para não deixar de fora as mulheres, vale lembrar a homossexualidade de Cassandra Rios (à esquerda),  primeira autora brasileira a vender mais de um milhão de livros.

Mas, voltando ao livro do qual me referi, seu lançamento ocorreu em Belo Horizonte, no mês de dezembro passado, com exemplares enviados para a nossa biblioteca estadual, possibilitando assim a minha consulta.

Para quem se interessar,  indico a fonte de consulta: https:/www. facebook.com/poesia gaybrasileira.

Voltando ao meu script, livro à parte, sinto necessidade de uma justificativa para não ser acusado de homofobia na indicação de um poema que pretendo ver publicado.

Meu sobrenome, Mello Rêgo, vem de uma genealogia meio camuflada. Meu bisavô, Antônio Joaquim de Mello Rêgo, foi um imigrante português, dono de sesmaria, plantador de cana no litoral do Nordeste brasileiro, que se casou com uma negra africana de sua senzala e com ela teve 11 filhos.

Um deles foi meu avô João Antônio Maria de Mello Rêgo, e a cor da minha pele é uma herança atávica, meio lá, meio cá.

Isso posto, entendo estar a salvo de críticas para falar de Mario Antônio Fera (à direita), poeta negro e gay, e de seu poema “Ser homem, ser negro, ser gay, ser só”.

Leio-o de pé, com reverência, descortinando à distância o contraste da cidade moderna com a favela empoleirada sobre o morro conquistado..

Leia-o, quem abrir o Portal e esta coluna, e certamente será o leitor surpreendido pela dimensão desse doloroso, porém épico, confessionário.

Mais uma vez, muito obrigado ao diretor jornalista Oswaldo Oleari pelo acolhimento (*).

Rodrigo Mello Rêgo.

Jornalista, Mestre em Estudos Literários

 

Ser homem, ser negro, ser gay, ser só

Mario Antônio Fera

Licença, Davis, King, Malcoln, Conceição Evaristo
Hoje quero falar de mim, de feridas, de dor
Falar de ser, do ser negro, do ser homem, do ser gay, de ser só…
Licença, Cesaire, Mahin, Abdias, Lélia Gonzalez
Corpo negro, em mundo branco.
No momento do flerte ouvi: – você é exótico, diferente, interessante.
– Mito ou verdade, é tudo aquilo que dizem?
Colocam a mão no meu cabelo, para sentir a tessitura, riem
Passam a mão na minha pele, para sentir a textura, fazem troça
Como crer ser digno de amor e afeto?
Como superar a auto-ódio e a baixa autoestima?
Sempre acreditei que eu não merecia o amor!
Corpo negro em um mundo branco.

A escola, ambiente castrador, movimento alienatário
Hormônios à flor da pele, descobertas, medo e violência
Que queria ser inserido, fazer parte da massa
Minhas condições faziam estar à parte
Estando à margem, marginalizado está
Eu, o resto, a sobra, o que não dava encaixe, o excesso
Sozinho estará
Não compreendia o processo
A dinâmica é sempre “clara”, “alva”, branca
Sozinho estará
Os pares se formam,
Meninos gays se amando
Os discretos, os foras do meio, os “brother”, claro
E eu à espreita, sempre esperando
De fora, assistindo, plateia
De vítima, me sobrecai a culpa
Culpa de minhas atitudes inadequadas
A culpa de meu pessimismo negro
A culpa de meus “mimimis”
Inversão de papéis, valores, repentinamente
– Não procura que você acha
– Se acalma que o amor vem
– Ainda bem que você não namora, é só dor de cabeça
A experiência dessa dor de cabeça eu quero ter
Precisei crescer amadurecer
Precisei tornar-me negro, enegrecer-me
Imbuído da consciência negra
Observando o meu rosto refletido no espelho
Ao som da voz rasgada de Elza Soares, compreendi
– A carne mais barata do mercado é a carne negra!
Entendi que o racismo, o sexismo e a branquitude
Operam de forma sistemática em minha existência
Em cada movimento do meu corpo e em cada espaço que ele ocupa
Não aceito mais o lugar do
– Negão.
Negão não.
Jamais, nunca, jamé.

E foram tantas aflições na busca incessante pelo amor
Amor aquele, que nos entende,
Aquele que nos manda bom dia no Whats às 6h da matina
Aquele que arranca da gente o melhor sorriso
Aquele que, a caminho do Aparelha Luzia,
Te solta o verso de Liniker – “deixa eu bagunçar você”
Mas, como projetar o amor em uma comunidade que vive o cárcere da heteronormatividade?
Pra viver o amor gay, é preciso preencher pré-requisitos de corporalidades
Para conviver em espaços homo afetivos para além de ser branco, é necessário
Virilidade, masculinidade e performar heteronormativamente
Sendo homem negro então!
Voltamos ao negão?
Acho que antes do amor, eu quero descobrir onde está a humanização do corpo negro masculino…
Eu sou homem ou eu sou máquina?
Eu estou vivendo ou estou a serviço?
Na realidade, eu estou caindo e levantando a cada dia
Vivendo a complexidade da infinita descoberta
Me entendendo homem
Me entendendo negro
Me entendendo gay
Me entendendo belo
Me entendendo forte
Me entendendo…
No meio deste emaranhado de compreensões eu fraquejo
Mas me fortaleço
Descortinar-se é complexo, abrem-se fendas
Criam-se cascas, acontecem rupturas
Mas é preciso, é necessário
Estou vivendo cada dia, desabrochando, caindo, levantando, em busca de mim
Em busca do amor.

(*) Portal Don Oleari é que deve agradecer a contribuição tão importante de um intelectual do nível de Rodrigo Mello Rêgo. A ele, a propósito, devemos creditar ser o único na imprensa do Espírito Santo a se dedicar à pesquisa da literatura erótica, fixando-se aqui na coluna na poesia erótica (Oswaldo Oleari).

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