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tera, 07 de abril de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Entro nesta quaresma sem fantasia, Frei Beto

 

MOMO  ALONGA SEU REINADO PAGÃO INVADINDO CELEBRAÇÕES CRISTÃS

O Carnaval não se limita mais aos três dias tradicionais, encerrando os festejos numa terça-feira para início da Quaresma, na quarta-feira imediata.

O que se registra nestes novos tempos, são comemorações que se iniciam quase uma semana antes da data oficial, invadindo os espaços das celebrações cristãs da Quaresma, na quarta-feira de cinzas.

Quaresma é a designação do período de quarenta dias que antecedem a principal celebração do cristianismo: a Páscoa, a ressurreição de Jesus Cristo.

É uma prática presente na vida dos cristãos desde o século IV.

Segundo a Carta Apostólica do Papa Paulo VI, a Quaresma passou a ter seu início na Quarta-feira de Cinzas para terminar antes da Missa Lava-pés, na Quinta-feira Santa.

(A quarta feira de cinzas é um dia usado para lembrar o fim da própria mortalidade).

Na Bíblia, o número quarenta é frequentemente citado, para representar períodos de 40 dias ou 40 anos, que antecedem ou marcaram fatos importantes.

Alguns exemplos mais conhecidos são:

  • 40 dias de dilúvio da Arca de Noé;
  • 40 dias de Moisés no Monte Sinai (à esquerda);
  • 40 dias de Jesus no deserto, antes do início do seu ministério;
  • 40 anos de peregrinação do povo de Israel no deserto.

O período de 40 dias tem implicações maiores.

Inicialmente, cerca de duzentos anos após o nascimento de Cristo, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum.

Por volta dos anos 350, a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias, período reverenciado pelos cristãos de todos os Continentes.

Confessando embora não ter se persignado com o sinal da cruz de cinzas na testa, nem o colunista, nem seus companheiros de redação e creio que até o Poderoso Chefão envolvido em muitas atividades – nenhuma delas pagã – deixaram de respeitar a data.

E testemunham essa postura escolhendo para publicação neste sábado  um poema do dominicano Frei Beto,  voltado contristo para essa passagem tão significativa da História da humanidade.

Um poema que é uma oração.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG

 

ENTRO NA QUARESMA SEM FANTASIA

Frei Beto

Entro nesta Quaresma sem fantasia, disposto às abstinências que resgatam, no mais íntimo de mim mesmo, a minha verdadeira identidade.

Calarei a língua ferina e não macularei a fama alheia exposta em público no varal de minhas cordas vocais.

Não darei ouvidos a inconfidências, nem ao ruído ensurdecedor das palavras vãs de quem só escuta a própria voz.

Fecharei o olhos para ver melhor e abrirei as janelas à revoada dos anjos.

Contemplarei as montanhas ocas de minha terra e derramarei uma lágrima por seus úteros arrancados e sonegados ao meu povo.

Nesta Quaresma, riscarei de meu dicionário o vocábulo competitividade e com aquarelas de utopias gravarei no coração solidariedade.

Irei ao encontro de quem ainda luta por direitos animais:comer, beber, educar a cria e abrigar-se das intempéries. Só assim costurarei minha humanidade esgarçada.

Jejuarei da ânsia consumista e ofertarei meu supérfluo tão necessário ao próximo. Abrirei a janela do carro e afagarei as crianças de rua, filhos de minha imobilidade frente a tantas injustiças.

Pagarei, com juros, a minha dívida social. Farei de Jesus parceiro de aventuras e deixarei que o seu Espírito engravide o meu.

Buscarei o silêncio orante e meditarei para inebriar-me da espiritualidade do conflito.

Adotarei o Sermão da Montanha como estatuto pessoal e assim acertarei meus passos nas trilhas da vida.

Arrancarei toda erva daninha – ciúme, inveja, ira – do canteiro de meus amores e cultivarei copas frondosas de quaresmeiras coloridas de ternura.

Serei perdulário com o bom humor e espalharei alegria como o ar que nos é dado a respirar.

Nesta quaresma, participarei da Campanha da Fraternidade na defesa da vida e contra o  Tráfico de Seres Humanos.

Desfraldarei a bandeira de minha indignidade e revelarei esperanças que,
olhos no futuro, me fazem acreditar num belo horizonte.

Peregrino, solitário e solidário, irei às fontes do Transcendente. Ao encontrar meu próprio poço,  mergulharei como um menino em suas águas profundas, até que o Pai de Amor me acolha em seus braços, dando-me de beber o vinho pascal do homem novo e da mulher nova.

 

– Passos, saltos & queda – Linki pra ler Passos, Saltos & Quedas, de Rubens Pontes.
http://online.anyflip.com/mitk/xjqj/mobile/index.html?fbclid=IwAR39mt-wlzHGKBAeTSG7cZOD4etEr38ocVyHkE-rPKkwvhpfI8qfvf7khLE#p=10

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