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quinta, 06 de agosto de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Liberdade, de Carlos Marighela

 

A Coluna já se voltara para registrar um outro lado da vida de Carlos Marighella, o mais importante líder revolucionário brasileiro na luta contra o regime militar de 1964, quando quase acidentalmente teve acesso a um excelente trabalho do capixaba Wilberth Salgueiro.

Ele é pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa, atualmente  chamado de Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com doutorado em Letras pela Universidade do Rio de Janeiro (URJN) e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (USP).

Também poeta e crítico literário, Wilberth Salgueiro produziu excelente trabalho sobre a poesia em Carlos Marighela, com um estudo sobre o soneto “Liberdade” escrito em 1939 e publicado pela Brasiliense em 1994 no livro “Poemas: rondó da liberdade” (à direita).

Quando escreveu o soneto, o guerrilheiro cumpria sua segunda das quatro prisões a que foi submetido, que totalizariam 30 anos de cárcere durante sua vida.

Negro, filho de uma baiana neta de escravos e de um italiano, liderou os guerrilheiros na luta contra a ditadura ganhando notoriedade internacional.

Élio Gásperi (*) escreveu:

– “O Menezes (codinome de Marighella) dava a impressão que estava em todos os lugares, na capa da revista Veja, nos cartazes amarelos espalhados pelo governo com os retratos dos dos terroristas mais procurados, nas páginas do “Les Temps Modernes”, ouvido nas ondas curtas da Radio Havana.”

(*) Élio Gásperi é autor de “A Ditadura Escancarada”, em quatro volumes.

Procurado em todo o País, ganhou a mística de combatente audacioso e invencível, atraindo a atenção da esquerda europeia.

Jean-Luc Godard destinou ao revolucionário parte do dinheiro que ganhou com seu filme “Vento do Leste”, e Joan Miró, o grande pintor catalão, vendeu desenhos para custear a movimentação de um guerrilheiro de Marighella em missão na Europa.

O líder terrorista, que mais de uma vez se mostrou impiedoso e cruel contra agentes do regime, foi morto a tiros, dentro de um “Fusca”, no dia 4 de novembro de 1969.

Carlos Marighella foi anistiado post mort em 2012.

Caetano Veloso dedicou-lhe, em “Abraçaço”, “Um comunista”, com versos que nos fazem recorrer ao soneto escolhido para publicação neste sábado: LIBERDADE.

Rubens Pontes é jornalista
Capim Branco, MG – Passos, saltos & queda – de Rubens Pontes.
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LIBERDADE
Carlos Marighela (à direita)

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome

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