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domingo, 27 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Eu sou uma mulher, de Marina Colasanti

– “UM LIVRO SEM MISTÉRIO. O MAIS NO MENOS, A LUZ NAS TREVAS, O PRINCÍIPIO NO FIM” – Marco Lucchesi

O colunista é encantado pelo trabalho literário de dois brilhantes casais de intelectuais presentes no cenário brasileiro. É um fenômeno incomum, por isso até certo ponto instigante: – A capixaba de Cachoeiro do Itapemirim Marly de Oliveira e seu marido, o pernambucano de Recife João Cabral de Melo Neto.

Clarice Lispector, madrinha, João Cabral e Marly, e Manoel Bandeira,  padrinho de casamento.

– e o casal Marina Colasanti e Affonso Romano de Santana, ela nascida em Asmara, na Etiópia, ele em Belo Horizonte/MG (foto à direita).

De origem geograficamente distante mas quase irmãos siameses na arte de versejar. Dos primeiros, a Coluna já teve o privilégio de publicar poemas que são marcas do seu talento e inspiração.

O complemento é neste sábado aposto, com a abordagem do trabalho poético de Marina Colasanti, autora de várias obras como “Minha guerra alheia” e “Rota de Colisão”, de repercussão além fronteiras brasileiras.

Seu último livro de poemas, “Mais longa a vida”, teve seu lançamento duas vezes adiado, a primeira pela crise que marcou duramente o mercado editorial brasileiro em 2016, aí incluída a Editora Record, e agora pela pandemia do corona vírus que praticamente parou o País.

A poeta de 82 anos lamentou o adiamento mas não se perturbou. Sua obra pode ser encomendada pela Internet, tanto em versão impressa quanto digital.

“Mais longa a vida” é o último e um dos mais fascinantes trabalhos de Marina Colasanti, abordando poeticamente temas como família, amor, perdas, viagens, saudades.

O Portal Dom Oleari, e os que nele deixam seu suor, muito a propósito desta data, prestam reverência à mulher, associando-se às homenagens que a ela são prestadas, completando esta coluna com um poema de Marina Colasanti, “EU SOU UMA MULHER”.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Jornalista

 

EU SOU UMA MULHER

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.

Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.

Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho-d’água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.

Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.

O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.

O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.

In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993

 

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