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domingo, 07 de junho de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – A lágrima, de Guerra Junqueiro

 

Ouça no final da coluna o poema A lágrima, recitado por Joaquim Sustelo em português de… Portugal.

Surtos, endemias, pandemias se sucedem no espaço e no tempo, gerando inquietações, medo e perplexidades.

Entre nós, neste século assustador, autoridades e cientistas se debatem buscando meios de contê-los e quase sempre se perdem, se digladiando, conflitantes, entre a busca de cura e da segurança da economia, esta, principalmente.

Muitas lágrimas têm sido derramadas, e o exemplo de correta e humana postura parte do povo sofrido, irmanando-se em contínuos testemunhos de solidariedade e de fé.

São lágrimas redentoras, e muitas vezes, ou quase sempre, basta uma delas para confortar corações e mentes.

A evocação de um poema de Guerra Junqueiro, extraordinário mestre da literatura portuguesa (*), se atualiza e traz do passado uma alegoria sobre a força e a ternura de uma lágrima derramada.

O Portal, pela Coluna, publica o poema como homenagem a todos os que choramos pela perda de alguém que morava em nossos corações. Muitos de nós entre todos.

“A Lágrima”, Guerra Junqueiro.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Jornalista

A Lágrima

Guerra Junqueiro

Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Sêca, deserta e nua, à beira d’uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.

Sôbre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,

A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.

Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrêla.

Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.

– “No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
Há safiras sem conta e brilhantes sem par,

“Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
Como beijos d’amor, a arder, cristalizados.

“Há pérolas que são gotas de mágua imensa,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.

“Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir

“Nesta c’roa orgulhosa, olímpica, suprema,
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!”

E a lágrima deleste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.
***

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.

E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
“Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!

“Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!

“E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.

“E assim alumiarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d’amor!”

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.
***

Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.

Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d’oiro.

E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,

Vendo a estrêla, exclamou: “Oh Deus, que maravilha!
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!

“Com meu oiro em montão podiam-se comprar
Os impérios dos reis e os navios do mar,

“E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!”

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.
***

Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:

“A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.

“Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.

“Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.

“Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas…

“Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!…

“Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d’água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!”

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu… e caíu silenciosa!…
***

E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,

Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito…

E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!…

(*) O Portal já publicou, de Guerra Junqueiro, os poemas “O Melro” e “A velhice do Padre Eterno”.

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / O Melro, de Guerra Junqueiro

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