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tera, 07 de julho de 2020

Aqui Rubens Pontes – Meu poema de sábado / Epigramas, de Ernesto Cardenal

 

Aos 95 anos de idade, falecia de parada cardíaca no dia 1º de março último em Manágua, Nicarágua, o poeta revolucionário e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal.

Protagonista da Revolução Sandinista, tornando-se em 1979 Ministro da Cultura da Nicarágua, envolveu-se em 1983 num episódio com o então Papa João Paulo II, em visita ao País, gerando constrangimento e repercussão mundial:

Ao pedir bênção, ajoelhado diante do Santo Padre, o Pontífice retirou a mão estendida para ser beijada e o admoestou:

– “Antes, deve se reconciliar com a Igreja”.

Durante mais de 30 anos, o Vaticano considerou ter o padre-poeta escolhido entre sua fé em Deus e seus ideais revolucionários, seguindo o sacerdote a portas fechadas.

Essa história começou a mudar em 2013, a partir da renúncia do Papa Bento XVI. Em 2019, hospitalizado com uma grave infecção renal, recebeu carta do Papa Francisco, informando-lhe ter o Vaticano anulado a proibição de administrar os sacramentos, imposta por João Paulo II.

Ernesto Cardenal nasceu em Granada, no dia 20 de janeiro de 1925, membro de uma das mais ricas e influentes famílias do País. Estudou filosofia e letras no México, pós-graduação na Colômbia e na Universidade de Nova York.

Em 1965 foi ordenado sacerdote em Manágua, onde fundou uma comunidade cristã, quase monástica, de artistas e pescadores numa ilha adquirida com dinheiro da família. Dali partiram alguns dos guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de Anastasio Somoza (à direita).

– “Tive a vocação de poeta desde que nasci; ao final da vida, o chamamento religioso. Fui, desde então, um poeta que entregou parte de sua obra a Deus. A isso, acrescento a vocação revolucionária: minha entrega a Deus me levou a entregar-me ao povo”, disse ao Jornal mexicano “La Jornada”, em 1925.

O Portal e a Coluna se confessam admiradores da atuação política e da obra literária de Ernesto Cardenal, que lhe valeram prêmios como o “Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda” e o “Rainha Sofia de Poesia”.

“Epigramas” é um dos seus mais instigantes poemas, escolhido para publicação neste sábado.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

jornalista

EPIGRAMAS

Ernesto Cardenal

Te dou Claudia, estes versos, porque tu és a dona
os escrevi simples para que tu os entendas.
São para ti somente, mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão, talvez por toda Hispanoamerica…
e se ao amor que os ditou, tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor que não foi para elas.
E talvez verás, Claudia, que estes poemas,
(escritos para conquistar-te) despertam
em outros casais enamorados que os leiam
os beijos que em ti não despertou o poeta.

Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos:
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era o que te amava mais
mas de nós dois tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como te amava a ti,
mas a ti não te amarão como te amava eu.

Moças que algum dia leiam emocionadas estes versos
e sonheis com um poeta:
Sabei que eu os fiz para uma como vós
e que foi em vão.

 

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