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tera, 07 de julho de 2020

Aqui Wilson Côelho: Ester Abreu, uma trajetória

 

É inegável a contribuição da professora, escritora, pesquisadora e atuante Ester Abreu na literatura que se produz no Espírito Santo. Além de sua produção intelectual, aqui a autora tem uma trajetória marcada por participações em encontros internacionais, em especial na Espanha, onde fez diversos trabalhos em parceria, desde tradução até análise de alguns de seus autores.

Não somente pela quantidade de obras publicadas. São mais de três dezenas de livros desde a poesia, inclusive com diversos poemas traduzidos para o francês e o espanhol, aos didáticos, passando pelos estudos literários, bibliografias e até obras infantis, sem esquecer de centenas de ensaios e artigos científicos.

Ela também se destaca pela qualidade, pois Ester Abreu tem uma pena afiada, firme e, ao mesmo tempo, fluida e simples e de uma capacidade ímpar de comunicar não somente com pesquisadores, mas também com o leitor simples. É uma literatura plena de vivências, tanto no espaço acadêmico quanto na esfera da memória, da observação e também pelo seu ativismo junto a entidades literárias, preocupada com a realidade dos movimentos culturais.

De sua intensa, vasta e respeitada produção intelectual que, inclusive, merece um ensaio mais robusto ou mesmo uma tese para dar conta de toda a riqueza de sua criação, pretendo aqui somente me ater a algumas de suas obras que dizem respeito ao teatro, levando em conta o momento em que estamos vivendo, tanto político do país quanto a necessidade de um confinamento, onde muitos projetos culturais na área teatral estão surgindo como uma tentativa de contribuir para uma reflexão e respostas para uma série de questões em que nossas vidas estão colocadas.

Ester Abreu tem um livro intitulado “Ensaios sobre dramaturgia – do clássico ao contemporâneo”.

Trata-se de uma obra necessária por compilar diversas informações à teoria teatral desde os gêneros até as opções estéticas e suas relações com momento histórico que implicam essas opções, além de pontuar os expoentes desses movimentos, passando pelo naturalismo, simbolismo, expressionismo, futurismo, teatro da crueldade, existencialismo, teatro do absurdo. Obviamente, com os devidos créditos aos dramaturgos e teóricos, inclusive, no Espírito Santo.

Na edição bilíngue “Teatro Clássico espanhol: quatro grandes dramaturgos”, entendidos aqui como Torres Naharro, Tirso de Molina, Lope de Rueda e Lope de Veja, Ester Abreu resgata um pouco de nossa herança como latino-americanos.

Em “Para una lectura del teatro actual – Estudio de panic de Alfonso Vallejo”, trata do teatro contemporâneo espanhol da pós-modernidade a partir de sua linguagem e sua significação no momento atual, onde se mesclam o trágico e o cômico, muito presentes em nossas produções mais recentes.

– No “Sorriso e Persona – Estudos sobre teatro e recepção” Ester Abreu organiza com Danilo Barcelos e Maria Mirtis Caser, com artigos de Ana Maria Quirino; “Teatro de revista: as convenções do gênero em ‘O Tribofe’, de Artur Azevedo”; de Danilo Barcelos, “A América é um blefe!”: elementos da sátira em ‘O rei da vela’, de Oswald de Andrade”;

– de Eduardo Baunilha, “A barca de Gil no inferno de Alvarito: O auto da barca do inferno, de Gil Vicente, revisitada por Alvarito Mendes Filho”; de Ester Abreu Vieira de Oliveira e Maria Mirtis Caser, “Amor, honra e facécia em ‘La niña de plata’, de Lope de Veja e ‘La dama duende’, de Calderón de la Barca”.

Mais: – de Fernanda Maia Lyrio, “Nem todo ‘Qorpo’ é santo: recorte sobre a comediografia de José Joaquim de Campos Leão”; de Karina de Rezende Tavares Fleury, “Diga-me o que veste e te direi quem és: a importância da roupa em ‘Don Gil de las calzas verdes’, de Tirso de Molina”; de Luanda Moraes Pimental, “O riso em ‘O inspetor geral’, de Nikolay Gógol”; de Rociele de Lócio Oliveira, “Teatro de títeres” e, de Thiago Brandão Zardini, “O papel do leitor na obra literária em Roman Ingarden, Hans Robert Jauss e Paul Zumthor”.

Sem retirar o brilho e a importância dos livros anteriores sobre a arte teatral, destaco, por questões óbvias, o volume “O teatro se subjuga ao poder? Ideias esquartejadas sempre renascem”.

Além da beleza da escrita, tendo em vista o resgate histórico do Brasil em tempos da ditadura, contribui efetivamente para uma reflexão sobre os riscos que corremos, assim como também serve de um alento para os que buscam estratégias para um posicionamento de resistência a partir de nossos trabalhos. A obra é resultado de uma pesquisa orientada por Ester Abreu, cujo título é “A imprensa e o teatro em Vitória e no Eixo Rio de Janeiro – São Paulo: da Ditadura à Democracia”.

A pesquisa foi dividida em duas linhas de investigação, a saber: “Mundialização do Século XXI buscando cânones jurídicos, culturais, linguísticos, psíquicos e sociais em suas relações com o Outro” e “Poética da Modernidade e Pós-modernidade”.

O livro, além de uma explanação sobre o processo da pesquisa, é dividido em 7 capítulos: “O teatro”, “Papel social do teatro”, “O teatro durante a ditadura”, O golpe militar e o enfrentamento do dramaturgo”, “Passagem para a democracia e o teatro”, “O poder da linguagem” e “O teatro e a ditadura”, seguidos de uma conclusão e 6 anexos, nos quais expõe alguns procedimentos da pesquisa e entrevistas com algumas pessoas que se destacaram no cenário teatral capixaba dessa época.

Enfim, conhecer a obra de Ester Abreu, para além de um privilégio, também se dá como uma oportunidade de se deleitar com sua literatura, sua poesia e, ainda, ter acesso a uma porta que abre diversos caminhos para a pesquisa e o conhecimento, principalmente pela sua trajetória que revela a forma carinhosa e dedicada aos temas que escolheu para dar sentido ao mundo.

Ester Abreu Vieira de Oliveira possui graduação em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Espírito Santo – Vitória (1960), Especialização em Filologia Espanhola – Madri (1968), Mestrado em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – Curitiba (1983), Doutorado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994) e Pós-Doutorado em Filologia Espanhola: Teatro Contemporâneo- UNED – Madri (2003).

É também membro-fundadora da Associação de Professores de Espanhol do Espírito Santo (APEES), da Academia de Letras Espírito-Santense, da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (à esquerda), do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da ALFAL, ASELE, ABRALIC, ASTCM, entre outros.

É professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), onde recebeu o título de Professora Emérita, com destaque para seus trabalhos no Mestrado de Estudos Literários, tendo sido homenageada com seu nome no prédio do Centro de Línguas da UFES. Foi também membro titular da Câmera de Literatura do Conselho Estadual de Cultura do ES.

Atualmente é aposentada e Professora Efetiva (Voluntária) e Emérita da Universidade Federal do Espírito Santo UFES-CCHN-DLL-PPG; Mestrado e Doutorado em Estudos Literários.

Foi professora e diretora de Pesquisa e Pós-Graduação (DIPEPG) do Centro de Ensino Superior de Vitória. Sua experiência se concentra na área de Letras, com ênfase em Línguas Estrangeiras Modernas, com estudos sobre poesia, teatro e a narrativa das literaturas hispânicas e literatura brasileira.

Wilson Côelho, Professor Doutor, teatrólogo, escritor, tradutor

Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados. Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES (Universidade Federal do ES); Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris. Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior – Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas. Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

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