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tera, 22 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado / Ingratos, de D. Pedro II

 

 

O autor do poema escolhido pela coluna para este final-se-semana certamente por poucos entre os eventuais leitores será identificado com a mera citação do seu nome:

– Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga.

Dom Pedro II, como passou à História, reinou no Brasil durante 49 anos, destacando-se pelo equilíbrio de suas ações e por sua preocupação com a educação, entendida por ele como força motriz da sociedade.

Dotado de excelente cultura, durante sua infância e juventude, preparando-se para reinar, estudou história, geografia, ciências naturais, letras, línguas, e teve aulas de equitação e esgrima.

Superando resistência dos grandes latifundiários brasileiros, proclamou a Lei Áurea, pondo fim à escravidão no Brasil.

Seu reinado teve fim com um “golpe militar”, liderado pelo então comandante do Exército por ele escolhido, o marechal Deodoro da Fonseca, em 1889.

Após sua deportação, Pedro II – que nascera em 1825 no Paço de São Cristóvão – morreu em Paris, no ano de 1891.

NO ESPÍRITO SANTO

Dom Pedro II visitou o Espírito Santo, tendo ele próprio redigido documento sobre sua chegada a Vitória, olhando a cidade com um binóculo e anotando em sua caderneta pessoal:

– “Entrada do Espírito Santo, do lado do Sul Moreno; mestre Álvaro do lado Norte, que se vê com tempo claro até 60 milhas ao mar; baixos do Buro e Cavalo ao Sul e Baleia ao Norte; ilja do Boi, do Des. Souto forte do Moreno; Vila Velha na base da Penha; portão e nicho no começo da subida para a Penha; Pão d’Açucar ao Sul; forte de São João ao Norte; Jucutucoara o do lado N., com seu mamilo sobre o comprido de granito no alto da Montanha, boa casa; do Monjardim, genro do Capitão-Mor Francisco Pinto do lado do sul sitio da pedra d’Água, ou de Santinhos.Fundeamos perto da ponte de desembarque às 9, 3/4. Desembarque ao meio-dia”.

Era o dia 26 de janeiro de 1860.

O livro Viagem de Dom Pedro ao Espírito Santo, de Levy Rocha, narra a passagem do Imperador por Linhares.

Um relato naturalmente sucinto sobre o reinado de um homem que amou o Brasil acima de tudo e deixou entre nós inconfundíveis marcas de seu esplêndido reinado.

O que o Portal destaca, por suas características e finalidade, é ter sido o Monarca também poeta, como a Coluna mostra nesta seleção da semana, publicando o poema “INGRATOS”, Dom Pedro II abrindo nele seu torturado coração.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG, Jornalista

2 Dezembro 1825 (Rio de Janeiro RJ)

– 5 Dezembro 1891 (Paris (França))

INGRATOS
D. Pedro II

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f’licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.

In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série. Produções Apócrifas: Sonetos do Exílio.

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