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quarta, 28 de outubro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Quatro poemas do poeta chinês Li Bai

 

Li Bai, Li Po ou Li Bo, três nomes mas um só verdadeiro, apontado no tempo e em nossos dias como o maior poeta romântico da Dinastia Tang, na China dos anos 700.

Denominado “poeta imortal”, com mais de mil poemas que chegaram ao nosso tempo, Li Bai nasceu no Quirguistão, no ano de 701, e morreu cedo, em Dangtur, uma vida curta e extraordináriamente profícua, interrompida aos 61 anos, até ela na busca de um sonho em forma de poesia:

– alcoolizado, afogou-se depois de cair de um bote quando tentava abraçar o reflexo da lua nas águas do rio.

A nossa Cecília Meireles, uma admiradora do poeta, foi uma das tradutoras para o português de muitos dos seus insuperáveis poemas.

O Portal e a Coluna dão as mãos com um mesmo sentimento de admiração e levam essa confirmação aos que nos leem publicando quatro poemas do fascinante poeta da velha China: O TEMPLO DA MONTANHA, NOITE NA FLORESTA, MINGUANTE NA PRIMAVERA E BEBO SOZINHO AO LUAR.

 

 

Rubens Pontes
Capim Branco, MG – jornalista

 

NO TEMPLO DA MONTANHA

Noite no templo
do alto da montanha.
Posso levantar a mão,
acariciar as estrelas,
mas não ouso falar
em voz alta.
Receio assustar
os habitantes do céu

NOITE NA FLORESTA

A noite na floresta é sagrada.
O céu tropical é meu templo.
Levanto meus braços ao firmamento
Afasto as nuvens e acendo as estrelas.
Uma a uma, qual lamparinas perfumadas
Incensando de delírios sonhos secretos.
No centro do meu jardim noturno
Recito meu poema em voz baixa
Com medo de acordar a alvorada.

BEBO SOZINHO AO LUAR

Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea…

MINGUANTE DE PRIMAVERA

Morrer? Viver? Sonhar?
Viver um sonho? Acordei naquele dia
e vi que um sabiá cantava entre as flores.
Perguntei ao pássaro que dia era aquele.
Primavera, foi o que me disse. Suspirei.
Tanto me comoveu seu canto. E me servi
de mais um poema. Embriagado então cantei
para aquele dia esperando a lua aparecer
por detrás da cortina do crepúsculo.
Ao fim da minha canção
tudo já tinha sido esquecido.

 

 

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