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tera, 22 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado – Kabir, indiano, “o tecelão da palavra”

Varanasi, Índia, 1440. Ano de nascimento de um dos mais instigantes poetas místicos de todos os tempos – Kabir, o primeiro discípulo do poeta santo Bhakti, Swami Ramananda.

Cem dos seus poemas chegaram até nossa geração (foto da capa de livro, no final da coluna) pela tradução do jornalista paulista José Tadeu Arantes, ele próprio discípulo do mestre Babaji Nagaray , autor da apresentação do mago indiano.

O Portal Don Oleari aplaude a seleção de alguns poemas do “tecelão da palavra” (à direita) com que a Coluna presta sua reverência ao poeta indiano do Século XV, admirados, um e outro, com a contemporaneidade dos versos que ressoam como se datassem de hoje, 580 anos depois de terem desnudado sua alma.

 

Rubens Pontes
Capim Branco, MG, jornalista

Kabir, “o tecelão da palavra”, visto por José Tadeu Arantes

Para a humanidade, que tateia no escuro, os grandes mestres espirituais são como lampejos de luz, que iluminam momentaneamente o cenário, e sinalizam o caminho. Homens e mulheres que buscaram e alcançaram, credenciam-se a conduzir pelas mãos os que vêm atrás.

Assim foi Kabir, o grande poeta indiano do século XV.

Iletrado, produziu uma obra poética que surpreende até hoje pela genialidade; crítico ferino da religião institucionalizada e acusado de heresia, foi reconhecido como santo pelo hinduísmo, o islamismo e o siquismo; irreverente até o limite da insolência, tornou-se um guia consumado do ioga e do sufismo. Tecelão e sábio, Kabir desafia os rótulos e as classificações.

Śabda 10
Kabir
Traduzido em inglês por Linda Hess e Shukdeo Singh

Santos, eu vi os dois caminhos.
Hindus e muçulmanos não querem disciplina, querem comidas saborosas.
O hindu mantém o jejum do décimo primeiro dia, comendo castanhas e leite.
Ele restringe seus grãos, mas não seu cérebro, e quebra seu jejum com carne.
O turco [muçulmano] ora diariamente, jejua uma vez por ano e canta “Deus! Deus!” como um galo.
Que paraíso é reservado para pessoas que matam galinhas no escuro?
Em vez de bondade e compaixão, eles expulsam todo desejo.
Um mata com um golpe, deixa o sangue cair, em ambas as casas queima o mesmo fogo.
Turcos e Hindus têm um caminho, o guru deixou claro.
Não diga Ram, não diga Khuda [Allah], assim diz Kabir.

NOITE NA FLORESTA

A noite na floresta é sagrada.
O céu tropical é meu templo.
Levanto meus braços ao firmamento
Afasto as nuvens e acendo as estrelas.
Uma a uma, qual lamparinas perfumadas
Incensando de delírios sonhos secretos.
No centro do meu jardim noturno
Recito meu poema em voz baixa
Com medo de acordar a alvorada.

[Poema 20]

Ó minha alma, para onde pretendes navegar?
Não há viajante a quem seguir, não há roteiro.
Que oceano atravessarás, em que praia descansarás,
Se não há mar, não há barco, não há barqueiro?
*
Se não há lugar, se não há hora, se não há meios,
Como acharás a água capaz de saciar tua sede?
Sê forte e volta-te para o interior de ti mesma:
Lá encontrarás chão firme, lá construirás tua sede.
*
Kabir diz: Põe toda imaginação de lado,
E permanece impassível naquilo que és.

Poema 5]

Ó asceta,
Como é difícil renunciar a Maya!
*
Quando renunciei ao lar,
Apeguei-me às roupas.
Quando renunciei às roupas,
Apeguei-me aos farrapos.
*
Renunciei à paixão,
E inflamei-me com a raiva.
Renunciei à raiva,
E enregelei-me com a avidez.
*
Quando venci a avidez,
Enchi o peito de orgulho –
Minha mente ainda presa
Na vaidade da renúncia.
*
Apenas quando a mente se aquietou,
Foi que enfim pude sorrir para Maya.
Antigas memórias e nova concentração
Fundiram-se então em minhas palavras.
*
Kabir diz: Escutai, meus bons irmãos!
Somente um em um milhão resolveu este mistério

 

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