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sexta, 27 de novembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado / Centenário de Elizeth Cardoso: Serenata do adeus + texto de Hamilton Gangana

16 de julho de 1920, Rio de Janeiro, RJ

– 7 de maio de 1990, Rio de Janeiro, RJ.

Foi Rui Viotti (à direita), então diretor da TV Rio, quem me levou para conhecer ao vivo, numa boite no Beco das Garrafas, na Avenida Princesa Isabel, uma cantora por ele apontada como uma das maiores do seu tempo.

Ouvi, aplaudi de pé, e lá mesmo me dispus a candidatar-me à presidência de um possível fã-clube de Elizeth Cardoso.

Elizeth Cardoso no Programa Cesar de Alencar, campeão de audiência das tardes de sábado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

“Serenata do Adeus”, uma de suas canções, marcou fundamente a minha sensibilidade e mesmo agora, cerca de 60 anos passados, tenho na memória os versos de Vinicius Moraes imortalizados pela insubstituível intérprete do cancioneiro brasileiro.

“Ai, a lua que no céu surgiu
não é a mesma que te viu
nascer nos braços meus”

– (Fato curioso pela coincidência: Clara Nunes, antes de seu sucesso como cantora, foi operária numa fábrica de tecidos. Elizeth Cardoso, fora, antes de seu sucesso como cantora, operária numa fábrica de sabão.)

O Portal Don Oleari, que tem no seu Poderoso Chefão um entusiasta admirador da cantora (já o ouvi cantarolar com ternura para sua amada “A noite do meu bem”, de Dolores Duran, imortalizada por Elizeth Cardoso)), aplaudiu a decisão da Coluna de se associar às homenagens à cantora (100 anos de idade que completaria agora), valendo-se do talento e da memória de um companheiro das Minas Gerais.

A letra de “Serenata do Adeus” é um poema que se insere entre as mais belas criações do gênio de Vinicius de Morais, e é do cronista, radialista e publicitário Hamilton Gangana o texto-homenagem que a Coluna deste sábado faz publicar.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG,

jornalista

Serenata do Adeus
Vinicius de Moraes

Ai, a lua que no céu surgiu
Não é a mesma que te viu
Nascer nos braços meus
Cai, a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra : Adeus
Ai, vontade de ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima, um momento breve
De uma estrela pura cuja luz morreu
Ai, mulher, estrela a refulgir

Rasga meu coração
Crava as garras no meu peito em dor
E esvai em sangue todo o amor
Toda desilusão
Ai, vontade de ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura cuja luz morreu
Parte, mas antes de partir

Elizeth, Clementina de Jesus, Cartola e Pixinguinha.

ASSIM ESCREVEU GANGANA:

A Divina Estrela brilha no céu

Hamilton Gangana

Com a indiferença e comprovada ausência de memória dos brasileiros com seus ídolos, confesso que estava preparado para ser desmentido: jornais, rádios, TVs e a internet fariam amplas e merecidas coberturas em homenagens a uma das mais importantes cantoras brasileiras de todos os tempos, a Divina Elizeth Cardoso, que completaria cem anos de nascimento no dia 16 de julho deste 2020.

Foi-se a esperança. Vi somente boa matéria de página inteira na Ilustrada da Folha de SP, na quarta-feira 16, e uma excelente audição especial do programa Hora do Coroa do produtor e apresentador Acir Antão, na Itatiaia, no domingo 21/7.

Acir dedicou as duas horas disponíveis para contar histórias, relembrar as canções mais expressivas do repertório de sucessos da saudosa artista, intercalando legendas curtas e comentários curiosos sobre a vida e a brilhante carreira artística da nossa grande intérprete. Uma bela demonstração de respeito e consideração à artista.

Elizeth nasceu em 1920, na periferia do Rio de Janeiro, filha de pai músico amador e mãe cantora e começou a se apresentar aos 16 anos, levada à rádio Guanabara pelas mãos do então já profissional Jacob do Bandolim, que a descobriu  menina, cantando numa festinha familiar.

Mulata, tímida, pobre e sem recursos, teve que começar a trabalhar aos 13 anos, como operária, bailarina e vendedora, para ajudar a família e se sustentar. Teve um casamento passageiro, que lhe rendeu um filho.

Só aos 30 anos conseguiu fazer seu primeiro registro musical em selo da gravadora Todamérica, uma das principais na época. Daí não parou mais. Foram lançados 44 álbuns. (Abaixo, um registro da gravadora Todamérica, lado A de um disco de 78 RPM (rotações por minuto).

A carreira de Elizeth foi construída com muito sacrifício, mas graças à sua inigualável qualidade vocal e uma interpretação diferenciada, carregada de emoção e personalidade, mais um repertório bem cuidado, tornou-se um grande nome da Música Popular Brasileira, durante mais de 50 anos.

Essa longa trajetória permitiu que ela convivesse e interpretasse composições da chamada velha guarda, como Pixinguinha, Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa, Paulinho da Viola, Ataulfo Alves – numa época em que brilhavam cantoras famosas como Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira, Aracy Côrtes, Ângela Maria, Heleninha Costa e Ademilde Fonseca, entre outras.

Em 1958, Elizeth gravou um disco importantíssimo, interpretando Canção do Amor Demais, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes que virou verdadeiro divisor de águas da MPB. Nascia ali um novo estilo de compor, acompanhar e interpretar, definido pouco depois como Bossa Nova.

O clássico Chega de Saudade recebia seu primeiro registro na voz de Elizeth, tendo o ainda quase desconhecido João Gilberto no acompanhamento de violão. Nos anos 60, Elizeth cantou e gravou várias músicas da nova onda, não só de Tom e Vinícius mas também de Chico Buarque, Carlos Lyra, Baden Powell, Capinam, Toquinho, Edu Lobo e outros bambas, sem mudar as suas características, mas também sem alcançar a popularidade que merecia. Ficou meio marginalizada, segundo registro de especialistas.

Em 1964, Elizeth foi a primeira cantora de música popular a interpretar a Bachiana número 5, de Villa-Lobos, nos sagrados recintos dos teatros Municipais de São Paulo e Rio de Janeiro.

Com participação do cantor de sambas Ciro Monteiro, Elizeth tornou-se co-apresentadora e intérprete do programa “Bossaudade”, na TV Record de São Paulo – ouça no final da coluna o discaço A Bossa eterna de Elizeth & Ciro com a fantástica participação de Caçulinha e seu regional.

Em 1968, a “Enluarada” Elizeth se juntou a um grupo musical e surpreendeu o Japão com a estonteante música brasileira num show maravilhoso: Elizeth, Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e Época de Ouro.

Consagrados no oriente, na volta ao Brasil, percorreram o país, de norte a sul, mostrando aos nativos, porque aquele vibrante show deixara os nipônicos simplesmente boquiabertos com a nossa música. Uma verdadeira apoteose. Anos seguintes, Elizeth voltou ao Japão pelo menos três vezes. Antes disso, já tinha feito viagens à Europa, Estados Unidos, Uruguai, Argentina, entre outros países.

A carreira de Elizeth ficou marcada também por uma inédita e ousada apresentação no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1968, quando impressionou a todos, interpretando, entre outros números, Villa-Lobos a capela, um grande momento da artista.

Elizeth Cardoso na gravação do disco com o saxfonista Moacir Silva, outro grande sucesso.

Em 2003, 35 anos depois do histórico acontecimento no Theatro Municipal, a gravadora Biscoito Fino – BF – reproduziu o memorável show com Zimbo Trio, Jacob de Bandolim e Época de Ouro e lançou o CD Duplo ELIZETH CARDOSO, de 80 minutos, com produção e direção artística de Hermínio Belo de Carvalho, acompanhado de livreto explicativo, tornando-se valioso documento para o MIS – Museu da Imagem e do Som.

E os fans japoneses da diva brasileira Elizeth Cardoso certamente ficaram muito felizes com o registro em CD Duplo do inesquecível show original, com a inspirada intérprete de Mulata Assanhada, Doce de Coco, Barracão, Serenata do Adeus, e nunca mais esquecê-la.

Informação – Atento aos fatos, em 23 de julho de 2020, o blog do Clube do Choro de BH postou matéria completa sobre a vida e trajetória exemplar da Divina Elizeth, que virou estrela no céu, em 7 de março de 1990, vítima de um câncer.

Hamiltron Gangana,

radialista, jornalista,

publicitário

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