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domingo, 29 de novembro de 2020

Erlon José Paschoal: Ludwig van Beethoven, 250 anos de nascimento / Somos todos Beethoven!

Por Erlon José Paschoal *

Mesmo com o isolamento social e o confinamento impostos por uma pandemia, comemoram-se neste ano em todo o mundo os 250 anos de nascimento de um dos maiores músicos e compositores do Ocidente: Ludwig van Beethoven.

Ele nasceu em Bonn, na Alemanha, em 1770, e morreu em Viena, onde passou a maior parte de sua vida, aos 57 anos, pobre, quase na miséria, famoso, completamente surdo e muito doente, deixando à humanidadeum dos mais grandiosos legados musicais e artísticos.

Tornou-se a partir de então um dos compositores mais populares do planeta. Afinal, quem não conhece a famosa abertura da 5ª Sinfonia, formada por três sons breves e um longo (tam, tam, tam, tammmm – ouça trecho no final do texto).

Mesmo quem não o conhece, sabe do que se trata. A sua aparência desleixada, os cabelos desgrenhados, lembrando os de Einstein, tornou-se a imagem clássica do gênio incompreendido, com um olhar alucinado
e penetrante.

Dizem que era irascível, pouco sociável, até mesmo selvagem e muito orgulhoso de si, negando-se a se curvar diante dos poderosos e dos aristocratas que financiavam os músicos e quase toda a atividade artística na época.

No único encontro que teve com Goethe (imagem dos dois à esquerda), por exemplo, contado por uma amiga de ambos, Bettina Brentano – em que estavam passeando e conversando em um jardim público, eles teriam se cruzado com integrantes da família imperial: enquanto Goethe se desfez em mesuras e rapapés, Beethoven se manteve ereto e mal levantou o chapéu.

Mesmo não sendo músico, sou um profundo admirador de tudo aquilo que este gigante da cultura universal conseguiu criar e entregar à posteridade, apesar de ter tido uma infância difícil e ter enfrentado inúmeras adversidades, para sobreviver neste mundo
e superar diversas doenças e dissabores.

Otto Maria Carpeaux escreveu certa vez que a arte de Beethoven é o maior documento humano em música, e se ela desaparecesse de nosso horizonte espiritual, “a humanidade teria deixado de ser humana”.

Beethoven compôs sinfonias, sonatas, quartetos e obras para piano que surpreendem até hoje as almas mais sensíveis, mas sua vida e sua obra culminaram, sem dúvida, na estreia da 9ª Sinfonia, em Viena, em 1824, sua obra mais sublime, que se tornou no final do século XX o Hino da União Europeia.

Uma obra que encarna como nenhuma outra, por assim dizer, o Zeitgeist, o espírito trágico, impetuoso, melancólico e universal do romantismo alemão, sobretudo, porque na estreia, Schiller, o autor do poema “Ode an die Freude”
(Ode à Alegria – ouça trecho no final do texto), já havia morrido, e Beethoven estava completamente surdo.

De costas para o público, próximo ao regente, ele não percebeu os aplausos intermináveis e o entusiasmo dos espectadores presentes naquele momento tão especial para quem ama a música.

A força e a beleza da presença do coro no último movimento da Sinfonia – a primeira na História da música com a participação de vozes humanas – parece ter sido preparado e anunciado alguns anos antes em sua única ópera “Fidelio”, com o coro irrompendo ao final em um tom de magnificência e afetividade. Um verdadeiro prenúncio do que estava por vir, alguns anos mais tarde.

Na 9ª Sinfonia, esta obra de gigante – como se fosse a síntese de uma vida dedicada à música, pois Beethoven morreu três anos depois – o compositor conclama a humanidade, através da beleza dos versos de Schiller, a se unir e a se amar fraternalmente.

Quase no final canta o coro: Seid umschlungen, Millionen! Diesen Kuss der ganzen Welt!

– Abracem-se, milhões! Este beijo para o mundo inteiro!

Esta apoteose encerrando a Sinfonia convida, exorta os seres humanos a serem mais fraternos, mais solidários, mais afetuosos. Esta explosão de Alegria e de Amor ecoa até hoje com muito vigor e muito lirismo, e ecoará por todo o sempre!

Somos todos Beethoven!

* Gestor cultural,

Diretor de Teatro,

Escritor e

Tradutor de alemão.

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