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sexta, 25 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Alturas de Machu Maccchu, Pablo Neruda

 

 

Colecionador de títulos e honrarias, Neftali Ricardo Reyes, imortalizado como Pablo Neruda, genial poeta chileno, foi agraciado com o Prêmio Nacional de Literatura em 1945, Prêmio Lenin da Paz em 1953, Prêmio Nobel de Literatura em 1971, apontado como um dos mais importantes intelectuais do Século XX.

O mês de julho, agora encerrado, marcou o seu nascimento em 1904 na cidade de Parral. Setembro, que se aproxima, a sua morte, em 1973.

“Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada” foi publicado quando o poeta completava 20 anos de idade, marcando seu definitivo espaço na literatura chilena.

Alternando a vida literária com a diplomática, Pablo Neruda foi o embaixador chileno na Birmânia, na Espanha e no México.

A guerra civil espanhola determinou uma mudança profunda na atitude do poeta, que aderiu ao marxismo, atuando na defesa dos ideais políticos e sociais inspirados pelo comunismo.

Em 1945 foi eleito senador pelo Partido Comunista, mas seu mandato foi caçado em 1948, quando deixou o País.

Em sua obra destacam-se: Residência na Terra (1933), España en el Corazón (1937), inspirado na Guerra Civil Espanhola, Canto Geral (1950), Cem Sonetos de Amor (1959), Memorial de Isla Negra (1964), A Espada Incendiada (1970) e a autobiografia póstuma, Confesso que Vivi (1974), um emocionante testemunho do tempo e das emoções de um grande poeta.

O Portal, pela coluna, homenageando a memória de Pablo Neruda, revela sua admiração pela civilização plantada nos vales e nas montanhas peruanas, incas, astecas, inuites, tribos brasileiras, indígenas norte-americanos, expressada por um dos seus imortais poemas – ALTURAS DE MACHU PICCHU .

Rubens Pontes

Capim Branco, MG,

jornalista

Alturas de Machu Maccchu
/ Pablo Neruda

Pedra na pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho roto
de homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas de outono morto
vai machucando a alma até a tumba?
A pobre mão, o pé, a pobre vida…
Os dias da luz esfiapada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas da festa,
deram pétala a pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?
Fome, coral do homem,
fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome, subiu tua linha de arrecife
até estas altas torres desprendidas?
Eu te interrogo, sai dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os escalões do ar até o vazio,
rascar a entranha até tocar o homem.
Machu Picchu, puseste
pedra na pedra, e na base, farrapos?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, temblando a vermelha
goteira do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Sacode das terras o pão duro
do miserável, mostra-me os vestidos
do servo e sua janela.
Diz-me como dormiu quando vivia.
Diz-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um buraco negro
feito pela fatiga sobre o muro.
O muro, o muro! Se sobre seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu sob ela
como sob uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submergida,
também teus dedos,
ao sair da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes nupciais da luz e do decoro,
mesclando-se ao trovão dos tambores e das lanças,
também, também teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a tela de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo
no amargo intestino, como uma águia, a fome?

Da Tradução: Igor Fracalossi
Referência: NERUDA, Pablo. “Alturas de Machu Picchu”, estrofe X, em seu Canto General, 1950.

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