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tera, 22 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Gregório de Matos e quatro poemas: um Religioso, um Satírico, um Lírico, um Erótico

 

O “Rank Brasil – Recordes Brasileiros”, registrou ter sido Gregório de Matos o primeiro poeta nascido em nosso País.

Críticos literários são unânimes em considerá-lo o maior poeta barroco e, muito antes de Machado de Assis, o introdutor do romance no Brasil.

Gregório de Matos foi o verdadeiro iniciador da literatura brasileira.

Fato interessante levantado pelo Portal mostra que o poeta, nascido em Salvador, Bahia, em 1636, nunca teve publicada em vida sua obra, inédita até o Século XX.

Somente na década 1923-1933 a Academia Brasileira de Letras editou seis volumes com seus poemas, mostrando o paradoxo de vertentes que se chocam: satírico, erótico e, às vezes pornográfico, e também lírico, moralista e religioso.

Membro de família rica – seu pai, Gregório de Matos, fidalgo da série dos “Escudeiros do Minho”, levou o filho para Portugal, onde se formaria em Direito pela Universidade de Coimbra.

Só retornou ao Brasil aos 47 anos de idade.

Conhecido como “Boca do Inferno” pela forma como ridicularizava políticos e religiosos, Gregório de Matos, no entanto, foi um continuador do modelo Barroco, consolidando o estilo introduzido no Brasil pelos missionários católicos como os jesuítas – José de Anchieta entre eles, no Espírito Santo – como instrumento de evangelização.

Esta coluna e Portal Don Oleari rendem sua homenagem ao “Boca do Inferno” de onde, no entanto, brotaram versos recebidos com unção pelos Anjos do céu, publicando poemas que confirmam sua versatilidade: satírico, religioso, lírico, erótico.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG.

Poemas pela ordem: Religioso, Satírico, Lírico, Erótico.

Religioso.

A NOSSA SENHORA DA MADRE DE DEUS INDO LÁ O POETA

Venho, Madre de Deus, ao Vosso monte
E reverente em vosso altar sagrado,
Vendo o Menino em berço argenteado
O sol vejo nascer desse Horizonte.

Oh quanto o verdadeiro Faetonte
Lusbel, e seu exército danado
Se irrita, de que um braço limitado
Exceda na soltura a Alcidemonte.

Quem vossa devoção não enriquece?
A virtude, Senhora, é muito rica,
E a virtude sem vós tudo empobrece.

Não me espanto, que quem vos sacrifica
Essa hóstia do altar, que vos oferece,
Que vós o enriqueçais, se a vós a aplica

SATÍRICO

O poeta descreve a Bahia

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana e vinha;

Não sabem governar sua cozinha

E podem governar o mundo inteiro

. Em cada porta um bem frequente olheiro,

Que a vida do vizinho e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,

Trazidos sob os pés os homens nobres,

/Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados,

Todos os que não furtam muito pobres:

E eis aqui a cidade da Bahia.

Lírico

À mesma dona Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, da rama fluorescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

Erótico

Necessidades Forçosas da Natureza Humana

Descarto-me da tronga, que me chupa,

Corro por um conchego todo o mapa,

O ar da feia me arrebata a capa,

O gadanho da limpa até a garupa.

Busco uma freira, que me desentupa

A via, que o desuso às vezes tapa,

Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,

Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.

Que hei de fazer, se sou de boa cepa,

E na hora de ver repleta a tripa,

Darei, por quem mo vaze toda Europa?

Amigo, quem se alimpa da carepa,

Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,

Ou faz da mão  sua cachopa.

Notas:

O poeta exalta o grande prazer sexual com suas amantes na Bahia e os escândalos sexuais envolvendo os conventos da cidade.

Traduzindo alguns termos:

Tronga: prostituta.
Gadanho: unha.
Garupa: anca.
Chalupa: sorte.
Alimpa da carepa: expressão que designa o ato sexual (Rubens Pontes).

 

Rubens Pontes, Capim Branco/MG

Jornalista

 

 

 

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