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tera, 22 de setembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Agosto, Cecília Meireles; Balada de Agosto, Zeca Baleiro e Fagner; Terra Tombada, Carlos Cezar e Jose Fortuna

 

 

Como gato escaldado tem medo de água fria, a Coluna vê com alívio terminar o mês der agosto.

Não se pode deixar de concordar com o registro de Gustavo Vilela que gostaria igualmente de ver o oitavo mês dos calendários juliano e gregoriano deletado na política brasileira.

Agosto tem sido um mês marcado por tragédias – suicídio, mortes, renúncias, impeachment – envolvendo personalidades principalmente do cenário político..

Foi em agosto de 1954, no dia 24, que o presidente Getúlio Vargas se matou com um tiro no coração.

Três vezes governador de Pernambuco, Miguel Arraes (foto à direita com o neto Eduardo Campos), uma das lideranças do Partido Comunista brasileiro, morreu no dia 13 de agosto de 2005.

Uma fatalidade: seu neto e também governador de Pernambuco, Eduardo Campos, em campanha eleitoral para a Presidência, morreu num acidente de avião no mesmo dia 13 de agosto, em 2014.

Foi também em agosto (1969) que o marechal Costa e Silva deixava a Presidência, por ter sofrido uma trombose, episódio que no seu desdobramento levou o País à mais dura fase da ditadura militar.

Foi ainda num mês de agosto, ano de 1976, durante os chamados “anos de chumbo” que o ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu.

O Opala em que viajava foi abalroado na traseira por um caminhão, no quilômetro 165 da Via Dutra, jogado na mureta e batido de frente em um ônibus.

(JK recuperara seus direitos políticos cassados após o golpe de 1964 e pretendia retornar à vida pública.

Seu funeral, realizado em Brasília, foi acompanhado por 300 mil pessoas entoando a música que tanto o identificava: “Peixe Vivo”).

A renúncia de Jânio Quadros da Presidência da República, com danosas consequências para a vida política brasileira, ocorreu no dia 25 de agosto de 1961.

Mais recentemente, a presidente Dilma Rousseff teve seu mandato cassado no dia 31 de agosto de 2016, abrindo espaços para o que veio depois.

Nem todos, porém, encaram o mês de agosto com igual fatalismo. É o que o Portal e a Coluna buscam mostrar, com a inspiração de poetas como Cecília Meirelles, compositores como Zeca Baleiro e Raimundo Wagner e cantores sertanejos – Chitãozinho e Xororó em composição de Carlos Cezar e Jose Fortuna.

Mas, pelo sim, pelo não, esconjuremos o lado negativo dos agostos, mesmo como este que nos trás, depois dele, o mês de setembro com as belas flores dos Ipês revividos.

Rubens Pontes, Jornalista
Capim Branco, MG

 

Agosto

Cecílias Meirelles

Sopra, vento, sopra, vento,

ai, vento do mês de agosto,

passa por sobre meu rosto

e sobre o meu pensamento.

Vai levando meu desgosto!

Lança destes altos montes

às frias covas do oceano

meu sonho sem horizontes,

claro, puro e sobre-humano.

Sem saudade mais nenhuma

te ofereço meus segredos,

para serem flor de espuma

que a praia mova em seus dedos,

quando se vestir de bruma…

Mova entre a lua inconstante

e a inconstantíssima areia,

que todo o mundo assim creia

meu sonho morto e distante,

morto, distante, acabado,

ó vento do céu profundo!

que tudo é bom, no passado,

que nos fez sofrer, no mundo,

ao ter de ser suportado…

BALADA DE AGOSTO

Zeca Baleiro – Raimuno Fagner

Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras que não digo

Mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido

Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha nos teus olhos

Terra Tombada

Composição: Carlos Cezar / Jose Fortuna

É calor de mês de agosto
É meados de estação
Vejo sobras de queimadas
E fumaça no espigão

Lavrador tombando terra
Dá de longe a impressão
De losângulos cor de sangue
Desenhados pelo chão

Terra tombada é promessa
De um futuro que se espelha
No quarto verde dos campos
A grande cama vermelha

Onde o farto das sementes
Faz brotar de suas covas
O fruto da natureza
Cheirando a criança nova

Terra tombada
Solo sagrado chão quente
Esperando que a semente
Venha lhe cobrir de flor

Também minh’alma
Ansiosa, espera confiante
Que em meu peito você plante
A semente do amor

Terra tombada é criança
Deitada num berço verde
Com a boca aberta pedindo
Para o céu matar-lhe a sede

Lá na fonte, ao pé da serra
É o seio do sertão
A água, leite da terra
Alimenta a plantação

O vermelho se faz verde
Vem o botão, vem a flor
Depois da flor, a semente
O pão do trabalhador

Debaixo das folhas mortas
A terra dorme segura
Pois nos dará para o ano
Novo parto de fartura

Terra tombada
Solo sagrado, chão quente
Esperando que a semente
Venha lhe cobrir de flor

Também minh’alma
Ansiosa, espera confiante
Que em meu peito você plante
A semente do amor

Também minh’alma
Ansiosa, espera confiante
Que em meu peito você plante
A semente do amor

 

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