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domingo, 20 de setembro de 2020

Manoel Goes: Quatro décadas sem Nelson Rodrigues

 

 

Se estivesse vivo, Nelson Rodrigues completaria 108 anos em 23 de agosto passado.

Escritor, romancista, contista, dramaturgo, jornalista, cronista de costumes e esportivo, autor de folhetins, foram muitas as denominações para o “anjo pornográfico”, que fez história ao lançar a peça Vestido de Noiva, em 1943.

Ele é considerado o mais influente dramaturgo do Brasil.

Morto em 1980, vítima de insuficiência vascular cerebral, após sete paradas cardíacas, Nelson Rodrigues teve uma vida tão espetacular e dramática quanto os personagens que criava para o teatro ou para folhetins como “Meu destino é pecar” e “Asfalto selvagem”.

Vencendo uma infância humilde e a tuberculose que traria sequelas permanentes à sua saúde, o autor também levaria para sua obra várias tragédias familiares e seus casos amorosos.

O dramaturgo nasceu da cidade do Recife no dia 23 de agosto de 1912, sendo o quinto dos 14 filhos de Maria Esther Falcão e Mário Rodrigues (foto à direita).

Seu pai era deputado e jornalista do “Jornal do Recife”, e mudou-se para o Rio de Janeiro por problemas políticos. Nelson iniciou sua carreia como jornalista, em 1925, especializando-se na página policial.

Aos 13 anos, começou a trabalhar no jornal do pai, o recém fundado A Manhã. Em 1929, trabalhou no segundo jornal do pai, chamado Crítica. Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou uma vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade.

Nelson viveu uma tragédia familiar que marcou toda a sua trajetória: a morte do irmão Roberto Rodrigues, que levou um tiro, na redação do jornal, dado por uma mulher da alta sociedade inconformada com a publicação de uma matéria sobre seu divórcio.

A primeira peça de Nelson Rodrigues, A Mulher Sem Pecado, estreou em 1942 que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. O sucesso veio com Vestido de Noiva, cuja primeira montagem ocorreu em 1943, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sua consagração como dramaturgo. A peça trazia, em matéria de teatro, uma renovação nunca vista nos palcos brasileiros.

Com seus três planos simultâneos (realidade, memória e alucinação construíam a história da protagonista Alaíde), as inovações estéticas da peça iniciaram o processo de modernização do teatro brasileiro. No teatro, foram 17 peças. Para o cinema, foram 23 adaptações.

Autor de frases famosas e conhecido pelas opiniões polêmicas, o dramaturgo nem sempre foi bem compreendido pela sociedade da época em que viveu. Nelson Rodrigues foi um escritor genial, não só introduziu o modernismo no teatro brasileiro, mas foi um intérprete do seu tempo, queria chocar, colocava o dedo na ferida falando da hipocrisia do mundo de forma bem-humorada sempre.

A consagração se seguiria com vários outros sucessos, transformando-o no maior dramaturgo brasileiro do século XX, apesar de suas obras terem sido, quando lançadas, tachadas por críticos como “obscenas”, “imorais” e “vulgares”. Em 1962, começou a escrever crônicas esportivas, deixando transparecer toda a sua paixão por futebol, um torcedor do Fluminense apaixonado que sempre dizia: “Grandes são os outros, o Fluminense é enorme. …”

Politicamente, gostava de se intitular como um reacionário. Chegou a apoiar o Regime Militar Brasileiro e elogiar o governo do presidente General Emilio Garrastazu Médici (1964/1974), o período de maior onda de repressão política no país, mas também tempos do “Milagre Econômico”, com a economia estabilizada e em crescimento.

No final da vida, após ter seu filho Nelsinho Rodrigues preso e torturado, Nelson revisou seus posicionamentos e militou pela anistia “ampla, geral e irrestrita” aos presos políticos.

A última peça, “A Serpente”, é escrita em 1978. O texto mostra duas irmãs que se casam no mesmo dia, uma é feliz no casamento e a outra não consegue sequer perder a virgindade em sua lua-de-mel. O espetáculo estreia em 1980, dirigida por Marcos Flaksman, no Teatro do BNH, no Rio de Janeiro. Esse teatro passa a se chamar Teatro Nelson Rodrigues, após a morte do autor.

Até hoje os espetáculos de Nelson Rodrigues ganham dezenas de remontagens. Além de suas peças, seus romances, contos e crônicas também ganham versões teatrais. Vinte de suas histórias foram adaptadas para o cinema. Nelson Rodrigues morreu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980. Neste mesmo dia, ele faria 13 pontos na Loteria Esportiva, num bolão que tinha feito com seu irmão e alguns amigos. E como gostava de dizer: Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar. …”. E assim foi!

Manoel Goes Neto, produtor cultural,

presidente do IHGVV e diretor no IHGES

 

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