Menu

quarta, 28 de outubro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Do sabor das coisas, Mario Quintana; Ode ao Vinho, Pablo Neruda

“Um bom vinho é poesia engarrafada” – Robert Louis Stevenson

 

O episodio ocorreu numa quinta-feira, 5 de dezembro de 1985. O respeitado leiloeiro Michael Broadbent levava à hasta pública nos salões da Christie’s, em Londres, uma garrafa de vinho Lafitte de 1787 (foto à direita), produzido em chateaux da região de Bordeaux, França.

A garrafa fazia parte de uma coleção de vinhos raros, encontrada numa casa demolida em 1985, em Paris, ao ser derrubada uma parede falsa que escondia no porão uma adega devinhos extremamente antigos.

A integridade dos lacres e o alto nível da bebida nas garrafas eram extraordinárias para vinhos daquela idade, certamente por serem mantidos à temperatura ideal entre 10 e 14 graus centígrados durante todo tempo.

Segundo alguns historiadores, as garrafas haviam sido emparedadas como proteção durante o caos da revolução francesa. Outros, mais tarde, para evitar a sanha de rapina dos nazistas que ocuparam o País.

Um detalhe particular chamava a atenção: as iniciais “Th.J” gravadas na garrafa – veja na garrafa – envolvida em seu leito de feltro verde, numa caixa de vidro, indicativas de que o vinho fizera parte da adega do terceiro presidente dos Estados Unidos, então embaixador na França entre 1784 e 1789, Thomas Jefferson, um apaixonado pelos vinhos franceses.

A história, narrada pelo colecionador alemão Hardy Rodenstock, falecido em maio de 2018, diz que a garrafa fora encontrada em 1985 quando operários que demoliam uma casa em Paris, ao derrubar uma parede falsa no porão, encontraram um esconderijo de vinhos extremamente raros, entre eles o Lafitte de 1787.

A adega estivera hermeticamente conservada, a temperatura estável entre ideais 10 e 14 graus centígrados, durante 200 anos, emparedada como proteção contra a violência da Revolução Francesa ou, segundo outros historiadores, imposta para evitar o saque pelos nazistas que anos mais tarde ocuparam o País.)

Presente ao salão de leilões de Londres, Chistopher “Kip” Forbes, filho do milionário editor americano Malcolm Forbes, portava a missão de levar para o pai, a qualquer preço, a cobiçada peça em disputa.

Até então, o maior valor leiloado, um Lafitte de de 1822, alcançara o valor de 38 mil dólares.

(Faço ligeiro parêntesis para voltar à taça do meu Circus Malbec 2019 (foto à esquerda), adquirido por 68,90 reais, antes de retornar ao leilão da Chistier’s.)

Os lances se sucediam alucinadamente até atingir o inimaginável valor, para nós absurdo, de 156 mil dólares e a garrafa com o vinho de 200 anos foi pra os Estados Unidos.

O preço pago pelo Lafite 1787 corresponde ao custo de compra de um automóvel Mercedes Bens A 2000 ou de um avião monomotor Seamex SN 149.

O fato me faz recorrer ao expert Amaury Temporal (foto à direita), à época diretor da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. Autor de várias obras especializadas, nome respeitado nos 5 Continentes, pedi a ele que me indicasse qual o vinho, de baixo custo, que eu deveria ter em casa para minha degustação pessoal.

Respondeu-me Amaury Temporal:

– Compre uma garrafa diferente por semana; a partir daí, entre elas, continue com a que mais lhe tenha agradado. E note: muito acima de cem reais é puro exibicionismo…

A citação na abertura do texto do escritor Robert Louis Stevenson é confirmada pelo Portal e pela Coluna, apreciadores de vinho e assíduos leitores de poemas. Foram assim associados um a outro, com a publicação neste sábado de sensíveis versos em que o vinho possui o sentido que lhe é atribuido.

Rubens Pontes, jornalista
Capim Branco, MG

Nota do editor: as informações sobre o vinho Lafite 1787 e os fatos a ele relacionados foram recolhidos do livro “O Vinho mais caro da História”, de Benjamin Wallace, Editora ZAHAR, best-seller do New York Times.

Do sabor das coisas

Mario Quintana

Por mais raro que seja,
Ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho
E silencioso amigo…

Ode ao Vinho

Pablo Neruda

Vinho da cor do dia,
vinho da cor da noite,
vinho com pés de púrpura
ou sangue de topázio,
vinho,
rutilante filho
da terra,
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um antigo veludo,
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso,
marinho,
jamais coubeste numa taça,
numa canção, num homem,
num coro, tens o sentido gregário,
ou pelo menos, comum.
Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda
vamos de tumba em tumba,
canteiro de gelado sepulcro,
e choramos
transitórias lágrimas,
mas
o teu formoso
traje de Primavera
é diferente,
o coração sobe aos ramos,
o vento move o dia,
nada fica
dentro da tua imóvel alma.
O vinho
move a Primavera,
cresce como uma planta de alegria,
os muros desmoronam-se,
os penhascos,
fecham-se os abismos,
nasce o canto.
Ó tu, jarro de vinho no deserto
com a doce amada minha,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao peso do amor afogue o seu beijo.

Meu amor, subitamente
a tua nádega
é curva plena
da taça,
o teu peito o cacho,
a luz do álcool a tua cabeleira,
as uvas os teus mamilos,
o teu umbigo o selo puro
estampado no teu ventre de ânfora,
e o teu amor a cascata
de vinho perene,
a claridade que inunda os meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.

Mas tu, vinho da vida, não és
somente amor,
escaldante beijo
ou coração queimado,
és também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo, quando se fala
à mesa, da luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou taça de topázio
ou colher de púrpura
que o Outono trabalhou
até encher de vinho as vasilhas
e que o músculo homem aprenda,
no cerimonial do seu negócio,
a recordar a terra e os seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Tradução de Luis Pignatelli
in Odes Elementares, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.

Comentários