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quarta, 28 de outubro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – ÁGUA & FOGO. ÁRTEMIS & MITOLOGIA GREGA

Superamos o Dilúvio de Noé, mas não estamos escapando de um novo ponto final para a vida na Terra.

É o que nos alerta o Livro Sagrado (Gênesis, 9.11-13) marcando que a Terra seria primeiro consumida pelas águas e seu próximo fim será pelo fogo.

A mão irresponsável do homem está presente na maioria dos flagelos que assolam o Mundo e por extensão os que nele habitamos.

Prenunciando o fim previsto pela Bíblia, fogo queima as matas da Amazônia (foto 1), fogo queima extensas áreas do Pantanal (foto 2), no Brasil.

Fogo se alastra sem controle nas civilizadas áreas da Califórnia (foto 1), do Oregon (foto 2), de Washington (EUA), e na aridez de planícies australianas (foto 3, abaixo à direita).

Alertas têm sido trombeteados mas não são ouvidas, desde os mais remotos tempos.

Sem controle.

O que mais virá?

Pergunta sem resposta já foi formulada desde a Esfinge plantada no deserto egípcio mas seus enigmas podem ser resumidos numa indagação inquietadora:

– Quem sou eu e o que faço aqui? De onde venho? Para onde eu vou?

Sem respostas, nós nos perdemos, e ontem, como hoje, nem o homem nem a ciência ajudam a desvendar o mistério do viver. Enquanto isso, ocupamos sem pudor a Terra como se ela exclusivamente para nós tivesse sido criada.

Sem buscar a fonte de sua salvação e do seu habitat, sem se preocupar em transformar a sede de ter e poder em nobreza, beleza e bondade, procuramos através dos seculos evitar que a Esfinge nos devore por medo paradoxal de termos nossa vida decifrada.

Esse tema, como outros afins, tem sido levantado nos intervalos para o café, aqui no Portal , quando, recompondo energia, falamos sobre generalidades, como a Mitologia grega. E aí há os que invocam Dionísio, deus do vinho do êxtase e da alegria, “o deus que nos ensina a conviver com o outro”, ressalta o Poderoso Chefão Don Oleari.

O colunista e a Primeira Dama se encantam com Ártemis, a deusa que honra e protege o sagrado na Natureza. Os romanos chamavam incorretamente Ártemis de Diana, a caçadora, pelo alforge e setas que exibe, mas que, ao contrario, representa aquilo que hoje alguns defendem, mostrando-nos que a Natureza, quando é agredida e desonrada, vinga-se espalhando desertos, fome e desolação.

Em seu nome, eram decretadas severas leis de contenção a caça de animais e ao abate das árvores.

As leis de Ártemis vão além, incluindo nelas nossa vida interior e o respeito aos nossos limites e nossas possibilidades, vendo homem como parte da natureza e não como proprietário dela.

(O culto a Ártemis advém da deusa Ísis (imagem à esquerda), no antigo Egito que constitui, por sua vez, na origem arcaica da Páscoa judaica e cristã, nos esclarece Victor D. Salis em seu livro “Mitologia Viva”, Editora Nova Alexandria, SP).

Encerrando o assunto, que poderia se alongar até a noite, o Poderoso Chefão quer fechar a edição e cobra:

– E o poema deste fim-de-semana?

Não um, mas dois, ambos sobre a fascinante Deusa do Olimpo Grego.

Com um detalhe ressaltado pela direção do Portal.

– Vitória é uma comunidade helênica é atuante com forte presença também no campo da cultura humana.

Destaque, entre outros, para o artista plástico Ioannis Zavoudakis, autor da estátua de Yemanjá (Ioannis em primeiro plano e a estátua, ao fundo), e da Cruz do Papa na praça do mesmo nome, um dos poemas selecionados, da poeta Safo, da Ilha de Lesbos, além de sua tradução, é publicado também na língua em que foi criado (fragmento 44 A ).

O segundo poema é “Acteão – Ártemis”, do poeta e diplomata Francisco Alvim (à Direita), mineiro de Araxá, Minas Gerais.

 

Rubens Pontes, Jornalista
Capim Branco, MG

 

A Febo

Safo

A Febo, cabelos de ouro, gerou a menina de Coios
unida a Zeus, Deus da nuvem superna e magno em nome.
E Ártemis jurou o grande juramento dos Deuses:
“por tua cabeça, para sempre virgem serei,
indômita nos cimos dos montes sozinhos
caçarei: vamos! Anui-me esta graça!
Assim falou. E anuiu o pai dos venturosos Deuses.
Virgem, arqueira fere-cervos, Caçadora, os Deuses
e os homens a chamam: um magno título.
Dela não se acerca Eros, o Desejo soltamembros……

Safo, Fragmento 44 A

Tradução de Rafael Brunhara)

No original:

[ ]σανορεσ̣..[
[Φοίβωι χρυσοκό]μ̣αι τὸν ἔτικτε Κόω .[
μίγεισ’ὐψινέφει Κρ]ονίδαι μεγαλωνύμω̣<ι>
[Ἄρτεμις δὲ θέων ]μέγαν ὄρκον ἀπώμοσε
νὴ τὰν κεφά]λαν, ἄϊ πάρθενος ἔσσομαι
[ἄδμης οἰοπόλ]ων ὀρέων κορύφα̣ι̣σ’ ἔπι
[θηρεύοισ’ ἄγι καὶ τά]δ̣ε νεῦσον ἔμαν χάριν·
[ὤς εἶπ’ αὐτὰρ ἔνευσ]ε θέων μακάρων πάτηρ·
[πάρθενον δ ἐλαφάβ]ολον ἀγροτέραν θέο̣ι
[ἄνθρωποί τε κάλε].σιν ἐπωνύμιον μέγα·
[κήναι λυσιμέλης] Ἔρος οὐδάμα πίλναται·
[ ].[.]….α̣φόβε[..]´̣.ω·

A C T E Ã O

Francisco Alvim

Setas de água
Desferidas da fonte
Contra
a mancha de
sombra
Ao longe
esplendor da caçada
Estandartes do sol
Ouro e flamas
Os cães se aproximam
Farejam
o ígneo coração
O dia esplende
A hora
A aérea hora
escorre no ar
Sopro de uma divindade
Alheia Dispersa
Ela,
a de lua recurva
segura a água
desnuda
a pedra da luz
Enquanto ao lado
cascos e galhada
surge a nova forma –
o caçador que se torna a caça
Ante os cães
um átimo de tempo
em que me vejo
vê-la
Nua e coroada
A fronte e o pé
Serenos
O pouso o repouso
do arco e da aljava
Verdor inextinguível verdor
a relva em que ela
passa

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