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sbado, 31 de outubro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Poema ao Rei Shu-Sin

 

 

Os relatos mais antigos sobre registros das emoções humanas parecem evidenciar que, como prova de expressão, a poesia antecedeu à prosa.

O amor, sobretudo, mostra-se presente em relatos mitológicos, em livros sagrados, em monólitos, em pedras rúnicas, séculos antes de Gutemberg ter descoberto a imprensa (à direita),

Arnaldo Antunes confirma: “A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.”

O  Portal Don Oleari  vai além, com um levantamento histórico que remonta ao Século XVIII a.C, publicando fascinante poema escrito pela deusa dos Sumérios, Inanna, dois mil anos antes da Era Cristã.

A Bíblia, o primeiro livro impresso, só foi editado em 1455: 300 exemplares com 641 páginas, escritas em latim.

Imagem da bíblia de Gutemberg

Na mitologia do Médio Oriente antigo as deusas nuas eram identificadas como deusas do amor e da guerra;  entre os Sumérios essa deusa era Inanna, que os acádicos chamavam de Istar e o Levante de Astarte.

Em artigo em que o historiador Kramer analisa o poema sumério que relata a queda do Deus-pastor Dumuzi,  “A primeira lenda da ressurreição”, afirma-se que deusas do Amor – seja a Vênus romana, a Afrodite Inanna grega, ou da Ishtar babilônica – sempre teve a virtude de inflamar a imaginação dos homens.

Os sumérios a adoravam sob o nome de Inanna, a «Rainha do céu», que tinha por esposo o deus Dumuzi, o deus-pastor (à esquerda), o Thammuz da Bíblia (Ezequiel, VIII, 14, ) .[Kramer, 1985, p. 180].

O poema levantado pelo Portal Don Oleari, impresso em caracteres cuneiformes, encontrado na região da Mesopotâmia, no Século XI a. C, somente foi  traduzido em 1890.

Para o português, a versão usada pela Coluna foi a tradução do professor Jorge Luiz Gutierrez, da Universidade Makenzie.

Shu-Sin foi um rei sumério da terceira dinastia de Ur (Ur III), filho de Šulgi, que, na chamada cronologia curta, reinou entre 2029 e 1982 A.C.

O “Poema ao Rei Shu-Sin” materializa a tese registrada pelo Portal de ter sido em versos a primeira manifestação do sentimento que afaga com doçura a alma humana.

 

Rubens Pontes, jornalista

Capim Branco, MG

 

Poema ao Rei Shu-Sin

Tradução do professor Jorge Luiz Gutierrez

Noivo, caro ao meu coração,

Agradável é a tua beleza, doce mel,

Leão, caro ao meu coração,

Agradável é a tua beleza, doce mel.

Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,

Noivo, eu deixaria que me levasses para o quarto,

Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,

Leão, eu deixaria que me levasses para o quarto.

Noivo, deixa que te acaricie,

A minha preciosa carícia é mais saborosa do que o mel,

No quarto o mel corre,

Desfrutamos a tua agradável beleza,

Leão, deixa-me acariciar-te,

A minha carícia amorosa é mais saborosa do que o mel,

Noivo, tu de mim tomaste o teu prazer,

Diz isto a minha mãe, ela far-te-á gentilezas,

O meu pai, ele dar-te-á presentes.

O teu espírito, eu sei onde recrear o teu espírito,

Noivo, dorme na nossa casa até ao amanhecer,

O teu coração, eu sei como alegrar o teu coração,

Leão, durmamos juntos em nossa casa até ao amanhecer.

Tu, porque me amas,

Dá-me o favor das tuas carícias, meu senhor deus, meu senhor protetor,

Meu Shu-Sin que alegra o coração de Enlil,

Dá-me o favor das tuas carícias.

Teu lugar agradável como mel, por favor estende a tua mão sobre ele,

Traz a tua mão sobre ele como um manto gishban

Cola tua mão como uma taça sobre ele como um traje gishban-sikin.

Nota final: a foto de capa é uma pedra rúnica com inscrição e está no Museu do Louvre,

em Paris, França.

 

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