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sbado, 31 de outubro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Louise Glück, poeta americana, conquista Prêmio Nobel de Literatura de 2020

 

Louise Glück, poeta americana de 77 anos,   conquistou o Prêmio Nobel de Literatura 2020. O anúncio foi feito na manhã do dia 8 deste mês pela Academia Sueca. É a primeira mulher premiada, desde a polonesa Wislawa Szymborska, em 1996.

Sem livros publicados no Brasil, a autora nova-iorquina foi escolhida  “por sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual”, apontou a  Academia Sueca.

Considerada por muitos uma das poetas contemporâneas mais talentosas dos Estados Unidos, Louise Glück é conhecida pela precisão técnica, sensibilidade e uma obra sobre solidão, relações familiares, divórcio e morte.

Nascida na cidade de Nova York, a nova Nobel de Literaturacresceu em Long Island e se formou em 1961 na escolasecundária George W. Hewlett. Posteriormente, frequentou a faculdade Sarah Lawrence, em Yonkers (Estado de Nova York) e a Universidade Columbia.

Ganhou o Prêmio Pulitzer de poesia em 1993 por sua coletânea The Wild Iris (“a íris selvagem”), e o Prêmio Nacional do Livro em 2014. “Virei uma velha. / Acolhi com gosto a escuridão / que tanto temia”, escreveu em Vita Nova.

A autora – inédita no Brasil – é considerada uma das poetas mais talentosas da sua geração, por sua “excepcional capacidade de fazer que a experiência seja assumida como própria por um leitor surpreso com a intensa percepção de poemas que iluminam acontecimentos absolutamente comuns”, como disse o crítico Andrés Ortega em uma resenha de The seven ages.

Sua primeira obra, Firstborn (1968), a fez ser aclamada como uma das poetas mais destacadas da literatura contemporânea do seu país.

Com livros como The triumph of Achilles (1985) e Ararat (1990) ficou conhecida fora dos Estados Unidos.

Averno (2006) é, na opinião da Academia Sueca, “uma coletânea magistral, uma interpretação visionária do mito da descida de Perséfone ao inferno no cativeiro de Hades, o deus da morte”.

O júri ressalta também o valor da última coletânea de Louise Glück, Faithful and virtuous night (2014). Mas Glück não escreve só poesia. Segundo o secretário permanente da academia, Ander Olsson, em seus ensaios ela dialoga com outros poetas cruciais da língua inglesa, como T. S. Eliot e John Keats.

Em 2015, o então presidente dos EUA, Barack Obama, condecorou a poeta Louise Gluck por sua contribuição para a cultura norte-americana.

Até 2020 foram entregues 113 prêmios Nobel nesta categoria (apenas um delem autor de língua portuguesa, José Saramago). Entre mais de uma centena de premiados, apenas 16 eram mulheres. A idade média dos vencedores é de 65 anos, sendo Ruyard Kipling o mais jovem (41 anos) e Doris Lessing a mais idosa (88 anos).

O Portal Dom Oleari, ao longo do seu tempo, tem dado especial destaque às mulheres que conquistam espaços numa área até há não muito tempo particularmente reservada a autores masculinos, e se sente honrado em publicar, nesta Coluna, dois poemas da sensível poeta norte americana que, até agora, não tem nenhuma de suas obras traduzida para o português.

Rubens Pontes,

jornalista

Capim Branco, MG.

Capa do livro físico de Rubens Pontes.

Parábola da fera

Louise Glück

O gato anda em círculos na cozinha

com o passarinho morto,

sua nova possessão.

Alguém deveria discutir

ética com o gato enquanto ele

perscruta o débil passarinho:

nesta casa

nós não exercemos

a força deste jeito.

Diga isso ao animal,

seus dentes já

fundos na carne de outro animal.

(Tradução de Pedro Gonzaga)

Flores silvestres

Louise Glück

O que estão dizendo? Que querem

vida eterna? Seus pensamentos são mesmo

tão arrebatadores assim? Com certeza

não olham para nós, não nos ouvem,

em sua pele

mancha de sol, pó

de botões-de-ouro: estou falando

com vocês, vocês que olham fixamente por entre

os talos de grama alta agitando

o pequeno guizo — Ó

alma! alma! Basta

olhar para dentro? Desdém

pela humanidade é uma coisa, mas por que

desprezar o vasto

campo, seu olhar elevando-se acima das nítidas cabeças

dos botões-de-ouro silvestres em direção a quê? Sua pobre

ideia de céu: ausência

de mudança. Melhor que a terra? Como

saberiam, se não estão nem

aqui nem lá, eretas entre nós?

(Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins).

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