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tera, 24 de novembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado / Bardo, de Tsering Wangmo Dhompa

Proibidas na China, suas obras literárias foram editadas em Taiwan e em Hong Kong.

 

O Tibete, berço do Dalai Lama, hoje ocupado pelos chineses, é pátria de intelectuais que, acima de sua rígida postura religiosa, produziram obras literárias de repercussão mundial, marcando fundo a sensibilidade também dos leitores ocidentais.

Padmasambhava, poeta e mestre (à direita), é um dos santos budistas mais venerados pelos tibetanos, como são Chime Lama, residente em Nova York, o poeta Sonam Tsono, que escreve em sua língua mãe, Bhuchung D. Sonam, Jetsun Milarepa, e a instigante poeta Tsering Wangmo Dhompa, autora do poema selecionado pela Coluna para este sábado (à esquerda) .

Considerada a mais influente intelectual tibetana, a escritora e poeta não sabe escrever em sua língua natal, idioma proibido nas salas de aula pelo governo chinês que ocupava o País.

Educada em comunidades tibetanas na India e no Nepal, fluente em hindi e nepali, Tsering Wangmo Dhompa  graduou-se em Nova Delhi, com mestrado e doutorado nos Estados Unidos, onde vive atualmente.

Escreve principalmente em inglês, mas também em chinês para, como diz, atingir um público maior e contar nossa verdadeira historia, como a destruição de mais de mil mosteiros e a tortura infligida aos monges desde 1966.

Primeiro livro premiado

Seu primeiro livro de poemas “Rules of he House”, foi finalista do Asian American Literary Awards, em 2003 (à esquerda).

Suas obras literárias, proibidas na China, foram editadas em Taiwan e em Hong Kong.

Seu blog “Tibet Invisivel” – http://woeser.middle-way.net, foi visitado por 3 milhões de internautas quando noticiou o controle da mídia estatal chinesa sobre os protestos no Tibet.

O Portal se sente  privilegiado por ter tido acesso aos poemas de Tsering Wangmo Dhompa, em tradução de Luci Collin (à direita), professora de Literatura de Língua Inglesa na Universidade do Paraná, tendo a Coluna se detido em “BARDO” para publicação esta semana. Uma leitura imperdível.

Rubens Pontes, jornalista
Capim, Branco, MG

Bardo

Tsering Wangmo Dhompa

Tradução de Luci Collins

Cento e uma lamparinas de manteiga são oferecidas ao meu tio que
não é mais.

A distração se revela fatal na morte. Uma cortina de manteiga é impressa
no ar.

Após a queima dos ossos, as cinzas são enviadas em peregrinação. Você está
morto, entra na vida, nós oramos. Meu tio era um homem dado a risadas
em momentos solenes.

A memória brota como açafrões em flor. Autoconsciente e
precisa.

Sem desfocar a córnea, detalhes são ressuscitados. Carne seca
de iaque entre os dentes. Semelhança do que é.

Não se distraia, Tio que não é mais.

Ele não vê seu reflexo no rio. A inflexão do discurso
em “s” à medida que ele está se tornando.

A curvatura da espinha ao estalar numa manhã enevoada. Uma sombra
evade da parede.

Você não é mais, Tio que não é mais.

A cada sete dias ele deve reviver seu momento de expiração.
Amiúde os vivos oram no meio do zimbro que queima.

Os esforços de comunicação exigem a iniciativa correta.

Nalgum lugar ao longo da linha questões de ação e repouso são resolvidas.

Corvos escolhem as últimas oferendas. Você é outra pessoa, tio não
mais.

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