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tera, 24 de novembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado / Xangô, Iansã, tradução de Antônio Risério; Janaína, de Manuel Bandeira; Iansã, de Gilberto Gil

Portal Don Oleari pede licença e respeitosamente entra no terreiro onde reinam os orixás

 

 

Antonio Risério, poeta e antropólogo baiano (esquerda), escreve sobre a poesia cantada na tradição iorubá conhecida como oriki, dedicada a reis lendários, heróis mitológicos e deuses da natureza (os orixás).

Esse gênero, entoado ainda hoje nos terreiros de candomblé, inspirou poetas como Manuel Bandeira (à esquerda) e compositores como Gilberto Gil.

Além, entre muitos outros, de Vinícius de Moraes, Tom Jobim (abaixo, à esquerda), Caetano Veloso.

Claudio Daniel, jornalista e poeta, com pós-doutorado em Teoria Literária pela UFMG, assinala ter sido o Oriki introduzido no Brasil no período colonial, sob o disfarce do sincretismo com o culto aos santos da devoção católica. (Veja vídeo com Claudio Daniel no final da coluna).

O oriki – que significa, literalmente, “canto (ki) da cabeça (ori)” – é entoado durante o culto religioso, ou xirê, ao som dos atabaques e acompanhado de danças ritualísticas – cada orixá tem a sua própria dança e um toque especial de tambor. O  canto Xangô, homenagem dedicada ao orixá que rege o relâmpago e a justiça (tradução de Antônio Risério) é uma bela demonstração desse tipo de apelo que nos chega dos terreiros do candomblé:

XANGÔ

Tradução de Antônio Risério

Xangô oluaxô fera faiscante olho de orobô
Bochecha de obi.
Fogo pela boca, dono de Kossô,
Orixá que assusta
Disputa com egum a posse de eku
Castiga quem não te respeita
Xangô da roupa rubra, dono da casa da riqueza.
Boca de fogo, felino na caça
Rompemuros rasgaparedes
Racha e crava pedras de raio.
Gritam teu nome na terra
Gritam teu nome na guerra.

(…)

Xangô, dono de Kossô, matador sem defesa
Kabiessi ô.
Não há lugar para todas as tuas roupas
Vida plena, aqui na minha tenda.
Enforcado não enforcado
Não nos bata com teu machado.
Que a vida, vida seja –
Dono de Kossô,

Me proteja.

Outra cantiga, dedicada a Iansã (ou Oyá), orixá que rege os ventos e tempestades, também traduzida por Antônio Risério,

IANSÃ

Tradução de Antônio Risério

Ê ê ê epa, Oiá ô
Grande mãe.
Iá ô.
Beleza preta
No ventre do vento.
Dona do vento que desgrenha as brenhas.
Dona do vento que despenteia os campos.
Dona de minha cabeça.
Amor de Xangô.

(…)

Aquela que luta nas alturas.
Que doma a dor da miséria.
Que doma a dor do vazio.
Que doma a dor da desonra.
Que doma a dor da tristeza.

Na música popular brasileira, o oriki inspirou compositores da Bossa Nova e Tropicália. Baden Powell e   Vinícius de Moraes gravaram o disco Afro-Sambas, e o grupo tropicalista baiano, formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa também gravou diversas canções inspiradas nos orixás.

A Coluna do Portal Don Oleari deste sábado não se afasta do seu design e selecionou para publicação um poema e uma composição inspirados nos orikis: D. JANAINA, Manuel Bandeira,  e IANSÃ, Gilberto Gil (veja e ouça vídeo com Gil no final da coluna).

À direita, capa da edição física do livro de Rubens Pontes.

Rubens Pontes, jornalista

Capim Branco, MG

JANAÍNA


(Manuel Bandeira)

  1. Janaína
    Sereia do mar
    D. Janaína
    De maiô encarnado
    D. Janaína
    Vai se banhar.
  2. Janaína
    Princesa do mar
    D. Janaína
    Tem muitos amores
    É o rei do Congo
    É o rei de Aloanda
    É o sultão-dos-matos
    É S. Salavá!

Sarava sarava
D. Janaína
Rainha do mar

  1. Janaína
    Princesa do mar
    Dai-me licença
    Pra eu também brincar
    No vosso reina.

IANSÃ
(Gilberto Gil)

Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim
Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim
Eu sou um céu
Para as tuas tempestades
Um céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou um céu
Para as tuas tempestades
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano
Dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim

Nota do autor da coluna:

A coluna do Portal  Don OIeari desta semana se valeu de registros formulados por Claudio Daniel, jornalista, poeta tradutor, ensaísta, com pós-doutorado em Teoria Literária pela UFMG.

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