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tera, 24 de novembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – A arte de amar, de Manuel Bandeira

Diplomata, bem nascido, letrista de algumas das mais belas canções do repertório brasileiro, um bon-vivant, boêmio, disputado seu convívio por muitas mulheres do seu tempo, Vinicius de Moraes casou-se 9 vezes.

Sem surpresa nem crítica, seus sucessivos casamentos foram recebidos com naturalidade.

Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes.

Vinicius de Morais era um romântico que se entregava integralmente, sem dolo, ao sentimento do amor. De cada amor.

Afinal, no Soneto da Fidelidade, o poeta confessa:

Que não seja imortal
posto que é chama
mas que seja infinito
enquanto dure.

O que certamente poderá surpreender aos eventuais leitores desta coluna do Portal Don Oleari é a pouco conhecida história amorosa de um outro poeta brasileiro, este sem o charme do poetinha, consciente de que não era um homem atraente, como confessou:

– “Sempre me acharam muito parecido com minha mãe. Só no nariz diferíamos. A semelhança estava sobretudo nos olhos e na boca. Saí míope como ela, dentuço como ela… “

Ainda assim, sem nenhum complexo, ele caminhava e sorria com os dentes expostos de ponta a ponta no rosto, olhos cobertos por óculos “fundo de garrafa”…

Carlos Drummond de Andrade, na foto com Manuel Bandeira, deixou escapar uma confissão do amigo:

– Não eram apenas os dentes sua arma secreta para o sucesso. Seus versos contribuíam também.

Ao longo de sua adolescência, Manuel Bandeira sempre passou a ideia de um homem solitário, enfermiço que era, parte de sua vida internado em sanatórios de cidades brasileiras, um ano na Suíça, tratando de uma persistente tuberculose jocosamente registrada por ele em versos numa simulada consulta médica:

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

Trinta e três… trinta e três… trinta e três.

– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o direito está infiltrado.

– Então, doutor, não é possível um pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino…”

O poema “Pneumotórax”, publicado em 1930, no livro Libertinagemé um dos clássicos do modernismo brasileiro.

Com tudo isso e apesar de tudo isso, Manoel Carneiro de Sousa Brasileiro Bandeira Filho foi também um homem de muitos amores. O poeta de belos versos e cara feia seduzia mulheres solteiras e casadas, brasileiras e estrangeiras.

O seu primeiro grande amor conhecido foi uma holandesa casada, Frédy Blank.

Mais tarde, quando morreu o marido, os dois passaram a manter uma convivência mais próxima, cada um em sua respetiva residência, um relacionamento de 45 anos até a morte dela.

No mesmo período e paralelamente, o poeta amou e foi durante 30 anos amado por outra poeta, a pernambucana Dulce Pontes, 27 anos mais nova.

Seu terceiro “affaire” conhecido sem segredos foi a mineira Maria de Lourdes Heitor de Sousa, filha de um ministro o STF – Supremo Tribunal Federal.

Gertrud Bühler e Manuel Bandeira: alemã e brasileiro foram ‘amantes’ | Foto: Revista época

O nome da alemã Gertrud Bühler apareceu quando sua filha, após a morte da mãe, na cidade de Esslingen, encontrou uma arca com dezenas de cartas de confissões amorosas encadernadas, trocadas com um brasileiro na década de 60.

As cartas, nos conta o escritor Marcelo Verrumo (in “História Bizarra da Literatura Brasileira”, editora Planeta), estavam cuidadosamente encadernadas com o mesmo tecido de um vestido mostrado numa foto posada ao lado de um cidadão brasileiro sorridente com óculos fundo de garrafa…

(Durante a guerra mundial, Gertrud Bühler e seu marido, judeus, haviam buscado refúgio no Brasil.)

O poeta brasileiro e a cidadã alemã se conheceram no Rio de Janeiro e pouca gente tomou conhecimento do que ocorria entre ambos.

À socapa, sem segundas intenções, dizia-se que Manuel Bandeira almoçava com uma, jantava com outra e dormia sem elas na casa dele.

Aos 80 anos de idade, Manuel Bandeira viu morrer sucessivamente dois dos seus amores, a holandesa Frédy Blank e a poeta Dulce Pontes.

Ensarilhando armas, o autor de alguns dos mais belos poemas da língua portuguesa passou seus dois últimos anos de vida com sua mais fiel companheira, a mineira Maria de Lourdes Heitor de Sousa.

Sob seus cuidados, Manuel Bandeira morreu solteiro no ano de 1968, aos 82 anos, vitimado por uma hemorragia gástrica.

O Portal Don Oleari endossa a opinião do colunista de que Manuel Bandeira é um dos 10 maiores poetas brasileiros de todos os tempos e seleciona, para publicação neste sábado, uma de suas irretocáveis criações:

– A ARTE DE AMAR.

Rubens Pontes, jornalista
Capim Branco, MG

Arte de amar

Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

eu não sei dançar

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria…
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Mistura muito excelente de chás…
Esta foi açafata…
– Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex-prefeito municipal:
Tão Brasil!
De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil…
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugelê banzai!
A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral,
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros…
Mas ela não sabe…
Tão Brasil!
Ninguém se lembra de política…
Nem dos oito mil quilômetros de costa…
O algodão do Seridó é o melhor do mundo?… Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria.

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