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tera, 24 de novembro de 2020

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Amanhecimento, de Elisa Lucindo

As mulheres se mostraram mais atuantes na disputa política deste ano e aumentaram sua participação na composição das Câmaras e nos Executivos municipais.

Em Belo Horizonte, por exemplo, o número de vereadoras passou de 4 para 11, e ganham destaque duas mulheres disputando o segundo turno para as importantes capitais Recife e Porto Alegre.

Mulheres negras, uma delas – Camila Valadão, acima na segunda foto – a segunda mais votada para a Câmara Municipal de Vitória/ES, e a trans Duda Salebert, acima na foto seis, eleita em Belo Horizonte – a mais votada, com 30 mil votos.

Conquistaram seus espaços mostrando que a sociedade finalmente reconhece que não há preconceito limitador da atividade humana, ainda que se argumente que ainda é pouco para quem detém mais da metades do eleitorado brasileiro.

O Portal Don Oleari se detém numa visão retrospectiva para concluir que as conquistas assinaladas nestas eleições de 2020 significaram grande avanço para uma visão igualitária dos problemas brasileiros.

Não se pode escamotear fatos da nossa História: desde a descoberta das terras brasileiras até 300 anos passados, não há sequer menção de nome feminino ligado às nossas conquistas.

As citações eventualmente registradas falam das paixões dos europeus pelas índias, a menção aos jesuítas evangelizadores solicitando ao rei de Portugal que enviasse para a terra recém descoberta mulheres aptas ao casamento (vieram órfãs, prostitutas, feiticeiras, criminosas, adúlteras, as negras para escravidão e para o ranger dos catres, como registrou a historiadora Ana Miranda – à direita).

Padre Antonio Vieira não fugiu à luta: segundo ele, as mulheres do seu tempo só deviam sair de casa em três ocasiões: para o batismo, o casamento e… seu próprio enterro.

Na fase atual da nossa História, em que mulher cada vez mais se impõe nos vários segmentos da atividade humana, é imperativo registar o reconhecimento do Portal Don Oleari e dos seus jornalistas e colaboradores a algumas pioneiras que, no correr do tempo, plantaram com suor e sangue e amor os alicerces para o que seria pela sociedade paulatinamente conquistado:

– Chica da Silva (à esquerda), a Marquesa de Santos, Ignez de Sousa, Anita Garibaldi, a Princesa Isabel…

Além das chamadas “mulheres da independência”, Maria Felipa de Oliveira, Maria Quitéria, Joana Angélica, à direita na mesma ordem na foto.

A literatura teve importante participação na valorização de personagens femininos e do seu modo de pensar e de agir: Marília de Dirceu, Helena, Capitu, Ceci, Tieta, Gabriela, (a metade) de Diadorim, a Moreninha.

Às mulheres do passado, às mulheres do presente e às mulheres do futuro, o Portal Don Oleari, via esta coluna, perde perdão às primeiras, rende homenagens às do presente e confia nas que farão nosso futuro.

O Poema deste sábado simboliza essa indobrável postura. “AMANHECIMENTO”, da capixaba Elisa Lucinda.

Rubens Pontes, jornalistas
Capim Branco, MG

Amanhecimento

Elisa Lucinda

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada…
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

 

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