Menu

quarta, 27 de janeiro de 2021

Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – Derrota de uma viagem ao Rio de Janeiro, em 1817, de Marcelino Duarte

 

Marcelino Pinto Ribeiro Duarte

Foto do saiti Morro Moreno: http://www.morrodomoreno.com.br/

Seus antepassados chegaram à Capitania do Espírito Santo no Século XVIII, tornando-se senhores de terras e de escravos.

Membro descendente dessa família de ricos latifundiários, surgiria no futuro uma das mais instigantes figuras da inteligência criativa capixaba, orador sacro, professor, jornalista, político, agraciado com a Comenda da Ordem de Cristo e da Rosa, no grau de Cavaleiro, pelo Imperador Dom Pedro II, deputado federal pelo Espírito Santo, Patrono da Cadeira 1 da Academia Espírito-santense de Letras.

Nosso personagem, com todos esses títulos, foi o Sacerdote que, numa reação memorável ao seu desterro de um ano em Itacibá, condenado por sua relação amorosa com uma jovem da cidade, prestigiado mais tarde pelo Imperador, foi o responsável pela transferência, em 1819, do governador da Capitania Francisco Alberto Rubim para o Ceará…

Apontado pelo emérito historiador Afonso Cláudio de Freitas Rosa (à esquerda) como o mais notável poeta capixaba na primeira metade do Século XIX, o Portal Don Oleari se curva e bate no peito homenageando o padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte.

Nascido na Serra, no ano de 1788, sem se surpreender com o fato de ter sido ele filho mestiço de outro padre, Manuel Pinto Ribeiro, pároco e professor de filosofia na Capital do Estado, sem nunca ter conhecido sua mãe.

Ordenado sacerdote por gestões do pai, o já então padre tonsurado Marcelino Pinto Ribeiro Duarte foi vigário em São Gonçalo, RJ, antes de retornar ao Espírito Santo, onde, como professor qualificado, lecionou filosofia e línguas.

(*) A igreja São Tiago, no futuro se tornaria o Palácio Anchieta, sede do governo do Espírito Santo, à direita.

Interessante destacar que Vitória, no período de vida do sacerdote, possuía apenas 4 mil 245 habitantes, cidade preponderantemente católica (então denominada Vila Nossa Senhora de Vitória) com numerosas igrejas:

– Igreja de São Gonçalo (à esquerda e ao centro), Convento São Francisco, Igreja Matriz, Igreja do Carmo, da Misericórdia, São Tiago, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Igreja do Rosário, Santa Luzia (à direita),

Foi nesse cenário rústico e provinciano que padre Marcino (assim chamado na intimidade) passou incólume e se destacou como pároco, como político, como professor, como poeta com seus versos líricos, românticos e… com seus numerosos casos de amor.

À esquerda, Convento do Carmo, mais tarde Colégio do Carmo, frequentado pela alta classe média de Vitória; à direita, Igreja da Irmandade de São Benedito do Rosário, da comunidade negra.

Ao abandonar a política que animou boa parte de sua vida, o padre-poeta mudou-se definitivamente para Niterói, onde morreu em 1860, deixando numerosa prole e belos poemas incluídos na Antologia “Jardim Poético”, que fora editada em 1856.

A Coluna desta semana selecionou um poema camoniano do padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte, uma mostra do seu grande talento na arte de versejar:

– “Derrota de uma viagem ao Rio de Janeiro, em 1817”.

Rubens Pontes, jornalista, Capim Branco/MG

Nota do Portal Don Oleari

Os representantes da população de Vitória prestaram homenagem ao sacerdote-poeta nominando no centro da cidade a Rua Marcelino Duarte, mais conhecida como a rua do Cine Glória, atual Centro Cultural Sesc-Glória. Ela vem do começo da avenida Beira Mar, passa pelo monumento a um papa em frente ao Banco do Brasil, atravessa a avenida Jerônimo Monteiro no sentido Praça Costa Pereira, até o Theatro Carlos Gomes. À direita, o edifício Palácio do Café.

Derrota de uma viagem ao Rio de Janeiro em 1817

Padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte

De outubro vinte e sete era contado,
Dia sempre pra mim saudoso e triste;
De nove alunos meus acompanhado,
E dum, que na viagem inda me assiste:
Levando o coração de dor cortado,
Que à mágoa, e que à saudade mal resiste,
Deixei no amável lar doce janela,
Donde alegre avistei Francina bela.

II

Ao cais me dirigi bem conhecido,
Se o nome se lhe dá de muito Santo,
Aí me vi de novo acometido,
Dum desmaio cruel, mortal quebranto;
E suposto que à mágoa sucumbido
Posso a custo suster o terno pranto,
Té pra mais ocultar o meu tormento,
No semblante fingi contentamento.

III

Por essas horas já descia alado,
O ligeiro — Jardim —, que assim se chama
O barco no qual devo ser levado
À corte do Brasil, que Rei aclama:
Já rubicundo Febo era montado
No coche de cristal, que ao mundo inflama,
Quando eu salto veloz n’alta canoa;
Toda a turba pré-dita à mesma voa.

IV

D’africana progênie assaz ligeiro
Lança a mão d’alto remo, cobiçoso
De se ver, qual pratica o vil sendeiro,
Isento do trabalho preguiçoso;
Não sente o negro audaz bruto e grosseiro,
Os efeitos de amor mais extremoso,
Pois pra mais aumentar minha aflição
Forceja, empurra, grita, mas em vão.

V

Porque o lenho parece que sentindo,
Quanto dura me era esta partida,
À triplicada força resistindo,
Imóvel se oferece à brutal lida;
Mas o teimoso arrais não desistindo,
Com alma pertinaz e enfurecida,
Com raivoso semblante n’água cai,
Lança mão da canoa, empurra e sai.

VI

Adeus, Vitória, digo então comigo,
Pátria ditosa, a mais feliz colina,
Goza amável, ah, sim, fica contigo
A encantadora, mas cruel Francina;
Tu sabes, não que o céu maior castigo,
Nem tormento maior, mágoa mais fina,
Me podia causar, se não privando
De por pouco avistar seu gesto brando.

VII

E quantas vezes, oh, quando a não via,
Onde alegre me faz meiga assistência,
Impacientemente me vestia,
Não podendo sofrer tão dura ausência;
Disfarçado passeio dirigia,
Té onde tem a doce residência;
Me recolhendo enfim, em vão sorrindo,
Se chegava a avistar seu gesto lindo.

VIII

E como poderei por quatro meses
(Tanto devo existir na pátria alheia)
Da saudade sofrer tantos reveses,
Sem Francina avistar que me recreia?
Pois não bastava já por duas vezes
Ter deixado saudoso a minha aldeia,
Para agora querer a crueldade,
Por meu gosto sentir de uma saudade?

IX

Deste modo comigo me queixava
No transporte de dor mais extremoso;
Eis que o lenho veloz se emparelhava
do Batalha chamado ao cais anoso;
Inda vejo o meu lar, donde admirava
De Francina o gentil rosto mimoso;
Não a vendo porém minha alma aflita,
Volvo os olhos então onde ela habita.

X

Primeiramente avisto alta morada,
Onde imberbe passei anos sombrios,
Sem de amores sentir paixão danada,
Té que Anália avistei de honestos brios;
Seu majestoso olhar, face engraçada,
Me fez sentir de amor mil desvarios,
Vindo enfim a sofrer sorte e destino,
Qual Ovídio sofreu no Ponto Euxino.

XI

Nela os olhos fitei; bem perto dela,
Mora a causa feliz dos meus cuidados;
Tão ingrata porém, quanto de bela
Tem nos travessos olhos engraçados;
Na fantasia então pareço vê-la,
Face de rosas, ombros delicados,
E os peitos virginais, donde Cupido
Feriu meu coração, inda ferido.

XII

Qual o que raio viu, eu vacilante,
Turva-se o mar, desperto do tormento,
Eis sobranceiro a mim vejo um gigante,
Imenso, horrível, feio, e corpulento,
Parecendo, qual monstruoso Atlante,
Nos ombros sustentar o firmamento;
Era este porém árduo rochedo,
Que a linguagem vulgar chama — Penedo

XIII

Corro os olhos daí, toda contemplo
Da linda pátria a face majestosa;
No alto dela está pomposo templo,
Da Vitória padrão mais gloriosa;
Alta torre dali me lembra o exemplo
Da cidade feliz, mas populosa,
Pois que ao longe inda a imagem representa,
De Tróia altiva, ou Tebas opulenta.

XIV

Já vejo a Este a rara fortaleza,
Que o sacro nome tem de — São João —;
Corre o lenho veloz e com destreza
À Pedra d’Água vai, foge o Romão;
Ilha das Cobras com igual presteza,
E das Pombas também correndo vão;
Desaparece a Ilha do Vigário,
O mesmo a do Minhoca, ou Boticário.

XV

A canoa que até então corria,
Com quase imperceptível movimento,
No montanhoso mar, que ora se abria,
Desce à terra, ora sobe ao firmamento;
Por entre as grutas vãs roncar se ouvia,
O mar que impele assaz anfíbio vento;
Alta vaga dali eis se me antolha,
Rola, bate daqui, me açoita, e molha.

XVI

Gela-se o sangue, e o pálido semblante
Inculca o susto, que sufoca o pejo;
Percebe o meu terror vivo estudante,
E grita: oh, lá, oh lá do Caranguejo…
Levanto os frouxos olhos, não distante,
Pernambucano vaso avisto, e vejo;
Me saúda de lá piloto ativo,
Correspondo, porém, nem sei se vivo.

XVII

Contra o iroso mar seguro abrigo
Implora pertinaz Vieira esperto;
Salta à lancha veloz com gesto amigo
O bom piloto então, e já bem perto
De salvar-nos ao hórrido perigo
Que consternados já contamos certo;
Eis me aparece ao sul, e se emparelha
A triste habitação de Vila Velha.

XVIII

Na frente tem do mar sobre alva areia
A residência vil dos desgraçados,
Por criminosos conta esta cadeia
De ratos dez milhões encarcerados;
Ao sul fica a matriz, escura, e feia;
Palhoças muitas tem, poucos telhados;
Só três cousas conserva em sei perfeitas,
Venuzina gentil, Vigário, e Freitas.

XIX

Ao leste se apresenta alta colina
De bem talhada, e regular figura,
Alcantilada rocha dura e fina,
Inacessível faz na imensa altura;
Sobre esta conserva a Mãe divina
Noble templo de rica arquitetura
Com toda a perfeição, só com o defeito
D’à Franciscana prole estar sujeito.

XX

Ali compete a sábia natureza
Com a indústria, invenção, ardil, e arte;
Se d’ouro e mármore aqui brilha a riqueza,
A obra se admira em qualquer parte;
Sacra imagem d’angélica beleza
Com os aflitos mortais mil dons reparte,
A devoção e o culto desempenha
Maravilhosos dons desta áurea Penha.

XXI

Que prodígios não conta a antigüidade
Desta Penha feliz, e milagrosa!
Ali conforto encontra a orfandade,
Que o pai, e mãe perdeu linda, e mimosa;
Se o consorte supõe na tempestade,
Ali chorando sobe a aflita esposa;
Sobe o nauta da vela carregado
Que escapou ao furor do leste irado.

XXII

O definhado enfermo escapo há pouco
À descarnada mão da morte dura,
Descalço sobe ali cansado e rouco
De louvores cantar à Virgem pura;
O aleijado, o cego, surdo, e louco,
Medicina ali têm pronta e segura,
E o Campista rival anualmente
Vem gostoso ofertar rico presente.

XXIII

Nas fraldas desta Penha um tanto ao norte
Guarda um castelo a barra pedregosa,
Piratininga só no nome forte,
Eis da Vitória uma arce respeitosa;
Ali me apresentei com o passaporte
Do grão Rubim, cautela preciosa;
Como acaso falei neste herói belo,
Parece justo dar a conhecê-lo.

XXIV

Havia um rei piedoso, um rei clemente
Mandado a governar a terra minha
Albuquerque Tovar, sábio, prudente,
Ilustre sucessor d’ímpio marinha;
Mas inveja cruel que não consente
Ditoso povo algum que ela adivinha,
Do mar surge outra vez um monstro feio,
Do governo lhe entrega a rédea, e freio.

XXV

Apenas vê d’um povo humilde e brando
A pronta submissão, sujeito a tudo;
Pra melhor inculcar feliz comando,
Faz no culto d’um Deus de um Deus estudo;
Gemendo o povo aqui, ali chorando,
Não sabe se queixar; calado, e mudo
Só pede, só suplica a um Deus amigo
Permita renascer o tempo antigo.

XXVI

Agrilhoado ali geme o consorte,
Lamenta o preso pai tenro filhinho;
Aqui preso outro enfim soube com a morte
Perder da linda esposa o bom carinho;
E o mísero Luís… que horrível sorte!…
Sofre um desterro tétrico e daninho,
Té que das fúrias hórridas tentado
Dispara contra si fulgúreo brado.

XXVII

Este foge ao furor do monstro horrível,
Vai aquele abrigar-se em terra alheia,
Outro prostra-se aos pés d’um rei sensível,
Do monstro conta a ação horrenda e feia;
Não desiste o cruel, quanto é possível,
De ao longe consternar a própria aldeia,
Té a índia pra servir este inclemente,
Manietada atrás vem mensalmente.

XXVIII

Mas tornando outra vez ao meu proposto,
Embarco enfim na lancha já chegada;
Entregue da saudade ao mor desgosto,
Deixo a praia de conchas matizada;
Com semblante alegre, com risonho rosto
Chego ao Jardim; minha alma consternada
Inda pode ocultar quanto saudoso
Deixo da pátria o porto majestoso.

XXIX

Apenas chego ao barco assaz veleiro,
Qual puxa o ferro, qual sustenta [a] amura;
Eis sobe ao mastro grande hábil gajeiro,
Sobre outro ao mastaréu de imensa altura,
Longevo já, mas ágil marinheiro
Corre ao leme veloz, rege, e segura;
Gritava o bom Ferreira cá debaixo

Leva o traquete acima, iça o velacho.

XXX

Refresca a viração, enfuna o pano,
Corre, voa o Jardim, que já bordeja;
Pra tormento maior, meu maior dano,
A linda pátria ao longe inda branqueja;
Aperto a destra ao bom Pernambucano,
E à prole Minerval de Gnido inveja;
A mesma voz de adeus me impede a mágoa,
Ponho um lenço nos olhos cheios d’água.

XXXI

Voava o bom Jardim; numa bordada
o rumo procurou do Lés-sueste;
Eis camba a vela grande, e já cambada
Foi noutro bordo um tanto a Noroeste;
Mareia a vela; apenas mareada
Noutro bordo que fez a barra investe,
Vencemos finalmente neste ensaio,
Ilhas do Bode, Boi e Papagaio.

XXXII

Bem perto do zênite fogoso Etonte
Pelos dourados fins do céu sereno
Rege o coche infeliz, do qual Faetonte
As águas foi beber do Pó ameno.
Já só o mar e céu vejo defronte,
Já vejo ao sudoeste alto Moreno;
Eis já Marcino enfim triste e saudoso
Vê de Anfitrite o reino pavoroso.

XXXIII

Roncava o fofo mar na proa ingente,
Já sibilante Norte enfuna a vela,
Das frias possessões do Deus Tridente
Fugindo as terras vão que o peito anela;
Pouco a pouco se vai mui sutilmente
Sumindo a Penha, já pequena estrela,
Até que pra meu mal, pra maior mágoa,
De todos se escondeu, sumiu-se n’água.

XXXIV

Enfermo Febo então já procurava,
De Tétis linda o reino majestoso,
Onde a deusa gentil lhe aparelhava,
Um leito de cristal rico e pomposo;
Assombra o mar, e céu, que se espalhava
Da noite o manto frio, e pavoroso;
Quando a bela Diana se apresenta,
Alveja a vela então, o mar se argenta.

XXXV

Depois dum bom lutar com o meu cuidado,
Que não me deixa em paz um só momento,
Busco o vil camarote inda fechado
Onde tréguas procuro ao meu tormento;
De suspirar em vão frouxo e cansado,
Deixo de todo o lúgubre aposento,
Onde aflito passei a noite inteira
Té a fresca manhã de terça-feira.

XXXVI

Não bem a roxa aurora aparecia
Dourando o espaço azul do céu brilhante,
Onde Febo feliz adormecia
No colo encantador da linda amante,
Quando eu, que esperto, espero aclare o dia,
Me figurando um século um só instante
Do feio camarote abro o postigo,
Que cinco dias foi meu vil jazigo.

XXXVII

Regia o leme então Chagas prudente
Que viagem feliz nos assegura;
Eu cheio de prazer, ledo, e contente
Indago dele o vento, o rumo, e altura;
Se a idéia não m’engana, e me não mente,
Ao que vejo me diz, se me figura
Nos baixos estarmos já, senão bem perto;
O prumo mostrará se eu falo certo.

XXXVIII

Mostro o prumo fiel ser verdadeiro
Quanto o Chagas nos diz belo e jocoso;
Lá se vai finalmente um dia inteiro,
Entre histórias que conta gracioso:
Já perto Febo está lindo e fagueiro
Do Netunino reino tenebroso;
Ao longe pela proa eis avistamos,
Um pequeno batel com quem falamos.

XXXIX

Ao mar das ilhas d’Âncora chamado,
Que em três léguas se faz, responde a lancha:
As cristalinas águas prateadas
Negra nuvem lá vem que suja, e mancha;
As tristes horas já eram chegadas
Em que a turba marítima se arrancha;
Vão se escondendo os Pólos pouco a pouco,
O mar se empola assaz soberbo e rouco.

XL

Cresce a minha aflição, que mais se aumenta,
Vendo o céu se envolver em manto escuro;
Grossa saraiva cai, troveja e venta,
Teme o Ferreira já sábio e seguro;
Origem foi cruel desta tormenta,
Um sudoeste assaz teimoso, e duro,
Por evitar prudente algum perigo,
Deu-se a popa veloz ao vento imigo.

XLI

Por entre o negro véu que não consente
Ígneo astro brilhar no firmamento,
Voa entregue o Jardim à força ingente
Do proceloso mar, raivoso vento;
A noite toda, enfim, noite inclemente,
Passamos sem dormir, no mor tormento,
Até que Febo alegre despontando,
Serena o vento, o mar abrilhantando.

XLII

À tormentosa noite horrenda e feia,
Sucede áurea manhã de quarta-feira;
Com meiga, doce voz, linda sereia
Nos augurou feliz nova carreira;
Louro cabelo a Deusa aformoseia,
No rosto belo, e face prazenteira;
É virgem a mais gentil té a cintura,
De feio peixe o mais tem a figura.

XLIII

As filhas de Nereu vêm graciosas
Ofertar-nos do mar rico produto;
Não laranjas, limões, maçãs cheirosas,
Impróprias produções de um reino bruto;
Nem são de nédia rês as saborosas
Carnes, de um bom pastor gostoso fruto,
Dez pargos são os dons das Deusas belas,
Que apreciamos mais que dez vitelas.

XLIV

Não festejaram tanto esses Troianos
Vendo os cervos que Enéias prosternaram,
Quando escapo do mar à fúria e dano
A vez primeira em terra descansaram;
Quanto contentes nós ledos, e ufanos
Com os gordos pargos dez, que se pescaram:
Quem prepará-los venha não se chama,
Este pega, outro corta, e aquele escama.

XLV

Toma o Chagas a se dispor à janta,
Que preparada foi com desempenho;
O rude marinheiro alegre canta
Ao sibilante som do alado lenho;
Meu companheiro Antunes se levanta,
Traz do Porto o melhor, do bom que eu tenho;
Jantamos finalmente nesta altura,
Se com grandeza não, mas com fartura.

XLVI

Já manso o mar, o céu claro e sereno
Bafeja mansamente o Lés-sueste,
Já feito um campo está vistoso, ameno
Um monstro estrugidor que nos investe,
Até que o bom Jardim frágil, pequeno,
Pra fúria sustentar do altivo Leste,
N’outro bordo se faz, procura a terra,
Rompe montes do mar que ronca e berra.

XLVII

Nesta carreira vence aquela noite,
Quanto um barco vencer pode à bolina,
Do bombordo sofrendo o fero açoite
Do monstruoso mar que nos empina;
Insta o Ferreira então que a mais se afoite:
A linda estrela d’alva diamantina
Doura o baço horizonte alegre, e pinta
A formosa manhã da feira quinta.

XLVIII

Cresce o dia, e o Leste impetuoso
Não afraca o furor que impele a nave,
Trepa colinas mil do mar undoso,
Desce outras tantas mil mansa, e suave,
Não pode o mar, e vento furioso
Ao Ferreira iludir de gesto grave,
Mais providente, sábio, e mais seguro,
Qual Acates não foi, nem Palinuro.

XLIX

Às horas em que o Sol buscava enfermo
No colo descansar da linda Tétis,
Qual monge que deixa há pouco o ermo,
Ou escapa ao furor do undoso Letes,
Sobre hirsuto o José do mastro ao termo.
Vê, lhe digo, oh José, se me prometes
Ver o Pico amanhã, Paço ou GamboDDUV
TerrDDUV, terrDDUV, gritou, terra na proa.

L

Bem como o mercador, que espera aflito
O navio que tem na Angola adusta,
De sinal no castelo ao leve dito
Sobe à pressa o mirante, e não lhe custa,
Eu contente também de — terra — ao grito
Subo o mastro veloz, e não me assusta,
Imperceptível sombra vejo aonde
Se acabou céu e mar, e o sol se esconde.

LI

Tinha da noite o véu feio, e sombrio
Enegrecido o mar, e o firmamento;
Inda raivoso sopra o Leste frio,
Inda revolto está o equóreo assento;
Enregelado eu de exposto ao dio,
Busco o Morfeu no mádido aposento,
Donde desperto, e salto ao outro dia
Aos gritos de prazer, e de alegria.

LII

Formoso Adamastor de hirsuta pele
Se me antolhou no mar equilibrado,
Da parte austral porém bem perto dele
Pequeno filho traz ao destro lado,  Estende o braço ao Este, e então com aquele  Outro gigante aponta alto, engrazado, Soberto defensor do urbense rio,  Se aquele nadador é Cabo Frio.

LIII

Surge há pouco dali a Ponta Negra,
As Maricanas ilhas se levantam,
O pont’agudo Pico nos alegra,
Saltam gostosos, ávidos não jantam
Sórdidos nautas do comer sem regra,
Redonda e Paios sem cessar decantam,
Eis Santa Cruz de alegre perspectiva
D’Hio Soberbo, quando Tróia aviva.

LIV

De um lado o Pão d’Açúcar sobranceiro,
D’outro esta arce de hórrida beleza;
Fala à buzina marcial guerreiro,
Responde o barco com igual presteza;
Alto castelo se antolhou fronteiro,
Passa-se a Lage, chega à Fortaleza,
Donde, pondo-se à capa, espera quedo,
Chega a visita, que chegou não cedo.

LV

Por trás da altiva Gávea se escondia
Já de Latona o filho moribundo;
Do grão Janeiro enfim n’alta baía
Surto o barco se fez, quando deu fundo;
Raiava de Novembro o primo dia,
Com rosto alegre nós, áureo, jucundo,
Saltamos na cidade a mais gentil,
Corte sublime do ínclito Brasil.

Comentários