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quarta, 27 de janeiro de 2021

Kleber Galveas: Presentes

Recebemos ao nascermos dois presentes divinos, sem os quais o mundo não seria como ele é: um individual, a vida; outro social, a linguagem.

O maior presente dado ao homem, pelo homem, foi o regime político democrático, experimentado primeiro, por breve período, na Grécia. O sucesso da democracia nos Estados Unidos (exemplo que em 1776 se espalhou pela terra e influenciou decisivamente a Revolução Francesa de 1789) foi que a consolidou e universalizou a democracia na era moderna. A retribuição francesa foi significativa, concreta e de grandes dimensões: a estátua da “Liberdade guiando o povo”, feita em Paris e entregue em NY.

Os japoneses, muito delicados em gestos e arte, têm a tradição de retribuir um presente com outro de menor valor. Segundo um amigo, para que um dia o valor chegue a zero, só restando carinho, o presente ideal. Ainda que trocado através de um fio, carta ou internet.

Marylin Monroe cantou “Diamonds”, mas interpretou muito melhor “Parabéns a você, querido presidente”. Diamantes realizam sonhos, mas é presente do qual pouco se desfruta. Passam a maior parte do tempo com outras joias num cofre apertado, escuro e alugado.

Quando há aflição, o melhor presente é o oportuno: quase sempre dinheiro; água para quem tem sede; pão para o faminto; camisinha na hora H; choque no enfartado; um reino por um cavalo…

O mais famoso presente desagradável foi o cavalo de Tróia, daí a expressão “presente de grego”. A lista desses presentes é grande como um elefante branco. Todo cuidado é pouco, um bom presente ontem, pode ser um fiasco hoje: caixa de charutos para quem parou de fumar; bebida alcoólica para AA novato; roupa apertada, de cor ou estilo inconveniente; doces para diabéticos…

As flores são sempre belas. Quem oferece um buquê sabe que na semana seguinte ele será trocado. Elas murcham em pouco tempo. Já pintei milhares, nunca colhidas e arrumadas numa jarra: Flores pintadas são para sempre.

Quase todos os presentes são descartáveis e dizem pouco de quem dá. Raros são os que se incorporam ao cotidiano de quem recebe, valorizam com o tempo, podem ser herdados e, lembrando um momento agradável, uma conquista ou realização, está ao alcance dos olhos o tempo todo. Com pintura e escultura é assim: presente que fica sempre presente.

O cidadão de bom gosto, interessado em dar um presente original precisa vencer o provincianismo, nadar através de um mar de comerciais fascinantes e resistir com personalidade e elegância.

Vitorioso, merece oferecer para si mesmo, ou para alguém de quem goste muito, um presente para sempre: uma obra de arte.

Kleber Galvêas – pintor. 27 3244 7115

[email protected] novembro/ 2004

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