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Aqui Rubens Pontes – Meus Poemas de sábado \ Mario Quintana, Cecilia Meirelles, Ferreira Gullar, Sergio Blank

 

Ficou para trás o chamado Ano Velho com suas muitas mazelas e algumas pouquíssimas benesses, mas o Ano Novo que se instala sem glória e circunstância não é lá muito animador.

À nossa tendência de esperar que o ano que bate às portas nos traga, ele só, bonanças, saúde e dinheiro, nos alerta lá de cima o poeta, mas realista, Vinicius de Morais:

– Quer? Então faça acontecer, porque a única coisa que cai do céu é a chuva.

Ainda assim, com alguma dose de otimismo, o pessoal do Portal Don Oleari encara no calendário a sequência de novos 12 meses como se pela frente doce esperança de dias melhores nos sentasse no colo.

Mesmo para os estudiosos das áreas da economia e da política, diante da penosa dificuldade do Governo instalado para gerir o País, mesmo buscando passar otimismo, será prematuro qualquer prognóstico sobre o que esperar a médio prazo.

Leigos, integrados na faixa dos que transpiram e calejam as mãos, somos conduzidos a aceitar essas ponderações, embora a sabedoria popular tenha sido sempre mais eficiente nas suas projeções do que os coroados membros dos estamentos governamentais e suas equipes de centenas de assessores instalados em amplos andares na Praça dos Três Poderes.

Diante de uma realidade indesmentida, rejeitando no entanto a proposição de derrotistas de que “quanto pior melhor,” somos, aqui na Casa, levados a buscar na poesia alternativas capazes de plantar flores onde nem os pastos vicejam mais.

O ano de 2020 não é mais, e o poeta Sérgio Blank, nascido em Vitória, se deixou levar com ele. Membro da Academia Espírito-santense de Letras, morreu solteiro e só, aos 56 anos de idade, tendo tido presença marcante nos meios da inteligência capixaba com várias obras editadas, algumas com esplêndidos poemas como “O anel que tu me deste”, um dos selecionados para publicação esta semana.

“Esperança” do mestre Mário Quintana, e “Ano Novo”, de Ferreira Gullar, completam com “Renova-te”, de Cecília Meirelles, um elenco que permanece vivo por mais governos e anos novos tornados velhos que tenhamos de deixar para trás.

Rubens Pontes, jornalista
Capim Branco, MG

 

ESPERANÇA

Mario Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

RENOVA-TE
CECÍLIA MEIRELLES

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Ano Novo

Ferreira Gullar

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

O anel que tu me deste (“Pus”, 1987)
parte um

Sérgio Blank

gente que nasceu em meu ano
não pensa a guerra
pedala sem tocar qualquer chão
pessoas que são poucas coisas
passeios suados de bicicletas
findando nos ônibus de rodoviárias
nas caronas já caretas
partem dois
escritórios de textos poéticos
de bossa à beça
basta de bosta na festa
besta com fama de lenda
bis de novo
nada de neo
herói demitido
a moto mata os mitos
o destino dos mortos
máquina de moer carne
resta meu rosto
farelo de rosca
risco de farsa e elo
entre tudo mesmo
eu não falo mais nada
eu não valho
a tensão presta serviço
escreve o lucro do escravo boçal
cabeça caída em távola de bar
agora eu vou
um tanto além de embora
morrer de rir
engasguei com a gargalhada
gargarejo de papo e papel
encalhe no brasil
partem todos
(da infância esquecida
ao ultrapassado das rugas)
chega

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham