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Aqui Rubens Pontes: Meus poemas de sábado – O POEMA, de Tomás Antonio Gonzaga

Estado de Minas Gerais – 300 anos de emancipação

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – revela que a população do Espírito Santo, em seus 78 municípios, é de 4 milhões, 64 mil e 52 habitantes.

Desse total, 600 mil pessoas são oriundas de outros Estados brasileiros, com destaque para a expressiva maioria do contingente de 286 mil 888 mineiros que cruzaram suas fronteiras e se radicaram entre nós.

Vencidos tropeços de fronteiras, capixabas e mineiros se irmanaram e hoje os que para o Espírito Santo vieram se sentem acolhidos, fazendo da nossa terra berço para a realização dos seus melhores sonhos.

O Portal Don Oleari, que abriga em sua redação jornalistas das Gerais, registra o fato histórico que marcou o desmembramento das Capitanias de Minas e de São Paulo, com a criação da Capitania de Minas do Ouro, ocorrida no dia 2 de Dezembro de 1720 por Alvará de D. João V de Portugal.

É assim que Minas Gerais comemora, neste mês de dezembro de 2020, 300 anos de sua emancipação. São trezentos anos de História, registrados nos anais dos mais de 400 museus mantidos em todo o Estado de Minas Gerais.

Museu Mineiro – Foto: Omar Freire/Imprensa MG

Saudando a efeméride, abraçando os mineiros de cá e de lá, Portal Don Oleari registra na Colunaproduzida por um mineiro/capixaba, seu solidário sentimento de orgulho pela conquista que marcou a vida brasileira.

O poema selecionado para esta semana tem vinculação direta com com o movimento que levou à Inconfidência Mineira, e narra o romântico, sofrido e inconcluso caso de amor entre um dos grandes poetas da época com uma jovem da sociedade de Vila Rica, a Ouro Preto do nosso tempo.

O poema Marília de Dirceu tem iguais 300 anos desde que foi escrito por Tomaz Antônio Gonzaga, membro da conjuração que levou à forca Tiradentes, aliás, único entre todos insurretos condenado a morrer na forca.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

Registro do Portal

Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão foi imortalizada com o pseudônimo de Marília e Tomás Antônio Gonzaga como Dirceu.
Punido com exílio em Moçambique, África, Tomás Antônio Gonzaga lá se casou com Juliana de Sousa, filha de um rico traficante de escravos.
Marília, solitária e infeliz, vagou pelas ruas de Vila Rica à sua espera, até morrer com 90 anos de idade.

O POEMA

Lira I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os Pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhe dou, gentil Pastora,
Depois que o teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Lira XIX
Nesta triste masmorra,
De um semivivo corpo sepultura,
Inda, Marília, adoro
A tua formosura.
Amor na minha ideia te retrata;
Busca extremoso, que eu assim resista
À dor imensa, que me cerca, e mata.
Quando em meu mal pondero,
Então mais vivamente te diviso:
Vejo o teu rosto, e escuto
A tua voz, e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passos;
Eu beijo a tíbia luz em vez de face;
E aperto sobre o peito em vão os braços.
Conheço a ilusão minha;
A violência da mágoa não suporto;
Foge-me a vista, e caio,
Não sei se vivo, ou morto.
Enternece-se Amor de estrago tanto;
Reclina-me no peito, e com mão terna
Me limpa os olhos do salgado pranto.
Depois que represento
Por largo espaço a imagem de um defunto,
Movo os membros, suspiro,
E onde estou pergunto.
Conheço então que amor me tem consigo;
Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
E com doente voz assim lhe digo:
“Se queres ser piedoso,
“Procura o sítio em que Marília mora,
“Pinta-lhe o meu estrago,
“E vê, Amor, se chora.
“Se lágrimas verter, se a dor a arrasta,
“Uma delas me traze sobre as penas,
“E para alívio meu só isto basta”.
É gentil, é prendada a minha Alteia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.
Mas, vendo o lindo gesto de Dirceia
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!
Prender as duas com grilhões estreitos
É uma ação, ó deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.
Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou de forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

Nota do Portal Don Oleari:

GONZAGA, Tomás Antônio. Op. cit. p. 116-117.
Referência bibliográfica
GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.
Por: Miriã Lira

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham